CAPÍTULO 10
CULTURA TROPEIRA: TROPEIROS, SUA REDE DE COMÉRCIO E O LEGADO CULTURAL
CAPÍTULO 10
CULTURA TROPEIRA: TROPEIROS, SUA REDE DE COMÉRCIO E O LEGADO CULTURAL
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1. Os primeiros desbravadores do Vale
Mutum e Roseiral devem sua existência aos tropeiros. Antes de qualquer igreja, escola ou cartório, foram as mulas e seus condutores que abriram as primeiras picadas, demarcaram pousos e criaram as condições para o surgimento dos núcleos de povoamento. “Os primeiros a se instalarem eram tropeiros, com suas vestimentas características do costume crioulo, criavam rancharias e no lombo dos burros, levavam a produção e traziam bens de consumo” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.).
Entre os séculos XVII e XIX, o tropeirismo foi a principal atividade de integração econômica do país. “As tropas de mulas eram as únicas capazes de percorrer os terrenos acidentados, levando ouro, diamantes, café e outras mercadorias para os portos. No caminho de volta, traziam sal, ferramentas e tudo o que era necessário para abastecer as vilas do interior” (ESTADO DE MINAS, 2026).
Cada mula carregava cerca de 120 quilos e podia percorrer até 3.000 quilômetros em jornadas de meses. Dom Geraldo dos Reis Maia (2025) descreve que os tropeiros eram desbravadores que levavam e traziam toda sorte de produtos utilizados nas propriedades. A atividade exigia força física, conhecimento do território e habilidades de negociação.
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2. Quem era quem na tropa
A organização de uma tropa era hierarquizada. Havia funções bem definidas. Dom Geraldo dos Reis Maia (2025) esclarece a diferença entre tropeiro e arrieiro: “Geralmente, uma tropa era composta por várias mulas e pessoas com missões específicas. O tropeiro era o condutor da tropa. O arrieiro era a pessoa que cuidava dos animais. Esse termo tem sua origem na interjeição 'arrê', usada para incitar os animais a andar”.
Essa distinção aparece na cantoria popular do Vale do Jequitinhonha. “Você me chama tropeiro / Eu não sou tropeiro não / Sou arrieiro da tropa, Marcolino / O tropeiro é meu patrão”, registra a canção “Tropeiro” (CNBB, 2025).
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3. As mulas que mudaram o país
O animal que permitiu a expansão do tropeirismo foi a mula – resultado do cruzamento de burro com égua – muito mais resistente ao terreno montanhoso brasileiro do que os cavalos. Oliveira (2011) explica que as primeiras mulas foram compradas da Bolívia, Argentina e Uruguai. Quando os brasileiros perceberam a lucratividade da atividade, construíram fazendas de criação de muares em Viamão (RS), que se tornou o principal polo criador. O gado muar chegava a custar dez vezes mais que o equino e o bovino na época.
A disseminação do gado muar deveu-se ao projeto do português Manoel Gonçalves de Aguiar, que descobriu muitas mulas soltas nos pastos vizinhos e teve a ideia de usá-las para o transporte de minérios das Minas Gerais ao Rio de Janeiro, já que muitos escravos morriam por não suportar o trabalho duro (GAZETA DO POVO, 2011).
A rota original do tropeirismo começou entre Laguna e Araranguá (SC). O primeiro mapa da Rota dos Tropeiros, guardado na Biblioteca Nacional, indica que o traçado original iniciava em Laguna e terminava em São Luiz do Purunã (PR). Em 1730, partiu de Laguna a primeira tropa com muares rumo a Ouro Preto (MG): 3 mil mulas e burros conduzidos por 130 tropeiros sob o comando de Cristovão Pereira de Abreu, posteriormente declarado patrono do tropeirismo. A viagem levou cerca de um ano e meio.
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4. Os caminhos do Sertão de Leste
O Vale do Médio Rio Doce era percorrido por tropeiros que vinham do Espírito Santo (pela rota do Rio Pardo, atual Iúna) e da Zona da Mata mineira. Alexandra Rosângela de Oliveira, diretora da Associação dos Amigos do Parque Estadual do Rio Doce, destaca que as montanhas impunham muitas dificuldades e as mulas eram os animais que melhor conseguiam fazer o trajeto (SEMAD, 2016).
Ao longo das rotas, os tropeiros criavam rancharias – pontos de parada e descanso. “Foi se formando pequenas estalagens, vieram os jesuítas e vigários, construíram-se as pequenas Capelas, formou-se a pequena vila, que nos fins de semana recebia gente que vinha para a Capela e comprava bens, veio o mercado” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.).
Estima-se que cerca de mil cidades brasileiras tenham sido fundadas para dar suporte à atividade tropeira (GAZETA DO POVO, 2011).
O gerente do Parque Estadual do Rio Doce, Vinícius Assis Moreira, lembra a conexão entre tropeirismo e a região: “Dom Helvécio, na primeira metade do século 20, veio como tropeiro à região. O 'tropeirismo' está em nosso DNA” (SEMAD, 2016).
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5. Cotidiano, vestuário e alimentação
O tropeiro usava chapéu de feltro preto, cinza ou marrom de abas viradas, camisa de pano forte, capa e/ou manta jogada sobre o ombro, botas de couro flexível que chegavam até o meio da coxa. Os equipamentos incluíam selas de couro cru, estribos de madeira ou ferro, cangalhas, bruacas (bolsas de couro) e cuias.
A alimentação nas estradas forjou a culinária tropeira. “Nos pousos, a refeição típica era o feijão quase sem molho, cozido em caldeirão de ferro, misturado com pedaços de carne de sol e toucinho (feijão tropeiro), servido com farofa e couve picada” (ESTADO DE MINAS, 2026).
O feijão tropeiro não é apenas um prato: é um documento histórico comestível. A necessidade de conservar alimentos por longos períodos sem refrigeração levou ao uso de feijão, toucinho, carne seca, farinha de mandioca, pimenta-do-reino e café.
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6. Sociabilidade e cultura
Ao redor do fogo, os tropeiros tocavam viola, contavam causos, repassavam notícias. “A música também carrega essa herança. Ao fim do dia, em volta da fogueira, os tropeiros tocavam viola e contavam 'causos', ajudando a fortalecer a tradição da música sertaneja de raiz e da contação de histórias” (ESTADO DE MINAS, 2026).
A chegada dos tropeiros num povoado era motivo de festa, como registra a cantoria popular: “Os tropeiros vêm chegando / Vem pedir a rancharia / Chama os donos da fazenda, Marcolino / Pra ouvir a cantoria” (CNBB, 2025).
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7. Museus, rotas e preservação da memória
O Museu do Tropeiro de Ipoema (Itabira-MG) contém mais de 700 peças e foi criado no berço da tradição. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais concedeu a Itabira o título de “capital estadual do tropeirismo” (ALMG, 2014).
Mendes (2019) analisa o surgimento dos tropeiros, sua influência na formação de identidade e seu papel como fonte de inspiração para produtos culturais. A pesquisa conclui que o movimento ainda busca o reconhecimento como patrimônio imaterial.
O Museu do Tropeiro de Ibatiba (ES), inaugurado em 2011, está instalado em um casarão construído em 1924 pelo imigrante libanês Salomão José Fadlalah. Seu acervo inclui celas de cavalos, balaios, utensílios de cozinha tropeira, capas, documentos e cartas.
A Rota Cicloturística Vales dos Tropeiros (Sebrae Minas) percorre cerca de 210 km em formato circular. Gil Sotero (2025) descreve a experiência: “Cada quilômetro pedalado é uma conversa com o passado, um respiro da natureza e uma celebração dos sabores autênticos de Minas”.
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8. O tropeirismo e a identidade mineira
A herança tropeira está no modo de ser do povo mineiro: na hospitalidade, na palavra dada como compromisso e na cadência pausada da conversa. Muitas cidades mineiras importantes nasceram dos pontos de pouso das tropas. “Para os tropeiros, um acordo verbal tinha força de contrato, e receber bem um viajante era uma regra essencial. Essa tradição de acolhimento e seriedade se tornou uma marca registrada do povo mineiro” (ESTADO DE MINAS, 2026).
O pesquisador Carlos Solera defende o reconhecimento do tropeirismo como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, apoiado pela Universidade de Girona (Espanha) e pelo IPHAN (GAZETA DO POVO, 2011).
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9. O legado tropeiro em Roseiral e na família Serrano
Roseiral, localizado em um vale fértil na rota que ligava o Espírito Santo a Minas Gerais, foi percorrido e habitado por tropeiros. “Os primeiros a se instalarem eram tropeiros” – essa frase da Prefeitura de Mutum é a chave para compreender que a ocupação do distrito foi liderada por esses condutores de tropas.
O legado tropeiro perdura em Roseiral: os causos contados à noite na varanda, o feijão tropeiro servido nas festas da roça, a hospitalidade de quem recebe o visitante com café coado na hora, a cachaça artesanal e a viola nas festas de São Sebastião e do Bom Jesus.
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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 10 (ORDEM ALFABÉTICA)
ALMG – ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE MINAS GERAIS. Distrito de Itabira mantém tradições do tropeirismo. 1 set. 2014.
CNBB – CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Tropeiro. Dom Geraldo dos Reis Maia. 23 fev. 2025.
ESTADO DE MINAS. A história do tropeirismo e sua importância para a cultura de Minas. 22 mar. 2026.
GAZETA DO POVO. Bem-vindos burros e mulas. 1 abr. 2011.
MENDES, Natália Corrêa Araújo. Tropeirada - do econômico ao cultural: identidade, patrimônio e produtos culturais. Dissertação (Mestrado), 2019.
O TEMPO. 2º Festival Tropeiro Mineiro. 6 set. 2025.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. História. Disponível em: mutum.mg.gov.br/historia/. Acesso em: 2 maio 2026.
REDE 98. Rota Vale dos Tropeiros – para sentir com as pernas, olhos e coração. Gil Sotero. 20 nov. 2025.
REVISTA HOTÉIS. Roteiro conta história do Tropeiro e sua importância para Minas Gerais. 21 nov. 2016.
SEMAD – SECRETARIA DE ESTADO DE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (MG). História ganha vida em evento no Parque Estadual do Rio Doce. 26 set. 2016.
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FIM DO CAPÍTULO 10



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