CAPÍTULO 8
HISTÓRIA: COLONIZAÇÃO, FORMAÇÃO TERRITORIAL DE MUTUM E A DISPUTA MG/ES
CAPÍTULO 8
HISTÓRIA: COLONIZAÇÃO, FORMAÇÃO TERRITORIAL DE MUTUM E A DISPUTA MG/ES
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1. Os primeiros habitantes e a ocupação proibida
Antes da chegada dos colonizadores, o território de Mutum e Roseiral era ocupado pelos índios Botocudos (atualmente denominados Krenak). “Os primeiros habitantes de Mutum foram os índios Botocudos, que vieram da região do recôncavo baiano, expulsos pelos índios guaranis por motivos bélicos” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.). Até 1809, a Coroa portuguesa proibia a conquista e colonização da região, que fazia parte dos chamados “Sertões de Leste”.
A partir de 1808, com a abertura dos portos e a vinda da família real, essa proibição começou a ser descumprida. “Entre 1808 e 1839, as bases que garantiram a entrada no Sertão de Leste foram estabelecidas e os maiores obstáculos vencidos com a construção de novas estradas oficiais, doações de sesmarias e proliferação de fazendas e vilas” (SANTOS & HORTA, 2016).
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2. A expansão mineira e os primeiros povoadores
Com a crise da mineração no final do século XVIII, a população das áreas mineradoras do centro de Minas se dispersou. “A população que se concentrava nas áreas mineradoras, no centro da capitania, dispersou-se para outras regiões, assegurando o povoamento e a expansão do território de Minas Gerais” (PONTES, 2007, apud ANUNCIAÇÃO, 2014).
Os primeiros colonizadores a chegar à região de Mutum e Roseiral foram tropeiros, que vinham do Rio Pardo (atual Iúna-ES) e criavam pequenas estalagens – as rancharias – ao longo do caminho. “Os primeiros a se instalarem eram tropeiros, com suas vestimentas características do costume crioulo, criavam rancharias e no lombo dos burros, levavam a produção e traziam bens de consumo. Foi se formando pequenas estalagens, vieram os jesuítas e vigários, construíram-se as pequenas Capelas, formou-se a pequena vila” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.).
A liderança indígena também está registrada na história local. Anunciação (2014) destaca que a região teria sido ocupada primitivamente por aborígenes, com destaque para o chefe indígena Guido Pokrane (GRIFON, s.d.).
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3. A formação administrativa do município
O marco fundador do povoado que deu origem a Mutum é 17 de junho de 1864. A emancipação política ocorreu em 19 de junho de 1912 (WIKIPÉDIA, 2026).
Antes disso, a área pertencia ao município de Rio José Pedro (atual Ipanema). O distrito de São Manuel do Mutum foi criado pela lei estadual mineira nº 556, de 30 de agosto de 1911 (IBGE, s.d.).
O traçado urbano da cidade foi definido em 1921. “Em 1921, é traçada a planta da cidade, pelo vereador Francisco Moreira, que define o primeiro entorno do município” (MUTUM ONLINE, s.d.).
Atualmente, o município é dividido em seis distritos: Mutum (sede), Centenário, Imbiruçu, Ocidente, Roseiral e São Francisco do Humaitá (WIKIPÉDIA, 2026).
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4. A disputa entre Minas Gerais e Espírito Santo
O litígio fronteiriço entre Minas Gerais e Espírito Santo, conhecido como Zona do Contestado, estendeu-se do final do século XIX até 1963. “Os territórios de Minas Gerais e o Espírito Santo travaram diversas disputas pelo controle administrativo e jurisdicional da chamada Zona do Contestado, região que compreende hoje a mesorregião do Vale do Rio Doce a leste de Minas Gerais e o Noroeste do Espírito Santo” (ANUNCIAÇÃO, 2014).
O conflito foi alimentado pela riqueza natural da região. Anunciação (2014) observa que o crescimento econômico e populacional, motivado pelas terras férteis e florestas, atraía os sucessivos governos. Do lado mineiro, o espírito bandeirante favoreceu o desbravamento; do lado capixaba, o território permaneceu escassamente povoado (PONTES, 2007, apud ANUNCIAÇÃO, 2014).
As primeiras tentativas de demarcação remontam ao início do século XIX. Silva (2023) explica que o Auto de 1800, assinado pelos governadores das duas capitanias, mencionava a Serra dos Aimorés como marco divisório, mas de forma vaga e superficial.
A violência na região foi constante. “A região contestada entre o Espírito Santo e Minas Gerais vivenciou um quadro de violência em torno da posse, do uso e da propriedade da terra, além da disputa por poder político” (SILVA, 2023). O princípio jurídico que vigorava era o uti possidetis: cada um defendia seu pedaço de chão, e muitos grileiros portavam títulos falsos (NEVES & PACHECO, 1992, apud SILVA, 2023).
O litígio só foi resolvido com a assinatura do Acordo do Bananal, em 15 de setembro de 1963 (SILVA, 2023). A área em disputa, rica em plantações de café, tinha cerca de 10 mil quilômetros quadrados (PREFEITURA DE MANTENA, 2025; ESTADO DE MINAS, 2013).
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5. O legado cultural e as tradições da região
Mutum está situada na antiga “Região das Matas”. “Cidade com muitas belezas naturais, incluindo inúmeras cachoeiras, tornou-se ponto atrativo para quem gosta da natureza” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.).
As festas tradicionais sempre marcaram a vida comunitária. “As suas festas eram no mês de Junho (junina de São João); ali comia-se torresmos, farinha e bolos, churrascos, broas e batatas. A dança era a quadrilha, o congo e o boi bumbá foi, e ainda são as tradições folclóricas mais importantes” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.).
Atualmente, o calendário municipal inclui a Exposição Agropecuária e o Encontro do Mutuense Ausente, realizados em julho. “Época na qual os que aí nasceram e vivem longe, voltam para rever a terra natal, os amigos e as mudanças que vêm acontecendo no município” (idem).
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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 8 (ORDEM ALFABÉTICA)
ANUNCIAÇÃO, Flávio Luciano da. Entre Trâmites Políticos e Conflitos Sociais: A Disputa Fronteiriça Mineiro‑Capixaba na Zona do Contestado (1940‑1963). Anais da ANPUH‑RJ, 2014.
ESTADO DE MINAS. As marcas do Contestado 50 anos após o litígio entre Minas e Espírito Santo. 25 maio 2013.
GRIFON. Mutum‑MG, parabéns pelos 114 anos. s.d.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Documentação Territorial do Brasil: Mutum (MG). s.d.
MUTUM ONLINE. História de Mutum. s.d.
PREFEITURA DE MANTENA‑MG. 62 anos do Tratado de Paz do Contestado. 15 set. 2025.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. História. s.d.
SANTOS, Victor Vinicius do; HORTA, Célio Augusto da Cunha. A Ocupação Do Sertão De Leste Nas Minas Gerais Do Século XIX: Uma Investigação Geo‑Histórica. Geografias (UFMG), Edição Especial – Vale do Rio Doce, 2016.
SILVA, Edmilton da. A região contestada entre o Espírito Santo e Minas Gerais e a história oral. Revista do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, v. 7, n. 1, p. 98‑121, 2023.
WIKIPÉDIA. Mutum (Minas Gerais). Disponível em: pt.wikipedia.org. Acesso em: 2 maio 2026.
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FIM DO CAPÍTULO 8



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