CAPÍTULO 9

ANTROPOLOGIA: POVOS ORIGINÁRIOS (BOTOCUDOS/KRENAK) E INFLUÊNCIA GUARANI



CAPÍTULO 9


ANTROPOLOGIA: POVOS ORIGINÁRIOS (BOTOCUDOS/KRENAK) E INFLUÊNCIA GUARANI


---


1. Quem habitava o Vale antes da colonização


O território onde hoje se assentam Mutum e Roseiral era, há milênios, domínio de povos indígenas. Dois grandes troncos culturais se encontravam ali: os povos de língua Macro-Jê, representados pelos Botocudos (autodenominados Krenak), e os povos de língua Tupi-Guarani, cuja expansão precedeu a conquista europeia.


A pesquisadora Izabel Missagia de Mattos (2004) explica que os Krenak são os últimos remanescentes dos antigos Botocudos do Leste, vítimas de constantes massacres decretados como “guerras justas” pelo governo colonial.


---


2. As muitas designações de um mesmo povo


Ao longo da história, os Krenak receberam diferentes nomes.


Aimorés – termo usado pelos tupis e adotado pelos colonizadores portugueses ainda no século XVI. “São conhecidos também por Aimorés, nominação dada pelos Tupí” (ISA, s.d.).


Botocudos – designação atribuída pelos portugueses no final do século XVIII, em referência aos grandes discos de madeira (botoques) que esses povos inseriam no lábio inferior e nos lóbulos das orelhas.


Krenak – autodenominação do grupo que sobreviveu ao processo de colonização. “O nome Krenák é o do líder do grupo que comandou a cisão dos Gutkrák do rio Pancas, no Espírito Santo, no início do século XX” (ISA, s.d.).


---


3. A língua Borun e o pertencimento linguístico


Os Krenak falam uma língua denominada Borun, pertencente ao tronco Macro-Jê. “Apenas as mulheres com mais de quarenta anos são bilíngues, enquanto os homens, jovens e crianças de ambos os sexos são falantes do português” (ISA, s.d.). Recentemente, os Krenak têm envidado esforços para que as crianças voltem a falar o Borun.


Pesquisa arqueológica recente (COSTA & VILLAGRAN, 2025) indica a ocupação intensa entre os rios São Mateus e Doce por grupos historicamente denominados Botocudos, reconhecidos como indígenas Krenak, falantes da língua borum do tronco macro-jê.


---


4. Território original e deslocamentos forçados


O território original dos Botocudos abrangia a Mata Atlântica do Baixo Recôncavo Baiano. “Foram expulsos do litoral pelos Tupi, quando passaram a ocupar a faixa de floresta paralela, conhecida por Floresta Latifoliada Tropical Úmida da Encosta ou Mata Pluvial Tropical, localizada entre a Mata Atlântica e o rebordo do Planalto” (ISA, s.d.). Depois do século XIX, deslocaram-se para o sul, atingindo o rio Doce em Minas Gerais e Espírito Santo.


Atualmente, os Krenak vivem numa reserva de aproximadamente 4.000 hectares, criada pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) no final da década de 1920. A reserva está localizada na margem esquerda do rio Doce, entre Resplendor e Conselheiro Pena (MG). A população Krenak é de 494 indivíduos (Siasi/Sesai, 2020), distribuídos entre Minas Gerais, Mato Grosso e São Paulo (ISA, s.d.).


---


5. Organização social, cosmologia e cultura material


À época do contato (1910), os Krenak eram predominantemente caçadores e coletores seminômades. “Sua organização social era caracterizada pelo constante fracionamento do grupo, pela divisão do trabalho por sexo e idade” (ISA, s.d.).


A cosmologia botocuda/Krenak possui um panteão complexo. “Os Marét, habitantes das esferas superiores, eram os grandes ordenadores dos fenômenos da natureza e, dentre eles, se destacava o Marét-khamaknian, herói criador dos homens e do mundo” (ISA, s.d.). “Outras entidades do panteão religioso eram os espíritos da natureza — os tokón —, responsáveis pela eleição dos seus intermediários na terra, os xamãs” (idem).


Havia ainda a crença em múltiplas almas, adquiridas a partir dos quatro anos de idade, quando eram implantados os primeiros botoques labiais e auriculares.


Os botoques – discos de madeira inseridos no lábio inferior e nos lóbulos das orelhas – são o traço cultural mais marcante do grupo. O geneticista Sergio Danilo Pena (2019) observa que, além da suposta ferocidade, os Botocudos tinham em comum o apreço pelos aplicos de discos de madeira – os botoques.


---


6. As guerras justas e o genocídio dos séculos XVIII‑XIX


O governo português declarou “guerra justa” contra os Botocudos em sucessivas cartas régias. A Carta Régia de 13 de maio de 1808, assinada por D. João VI, determinava uma guerra ofensiva que “não teria fim”.


No contexto desse plano, o príncipe autorizava o confisco das terras ocupadas pelos Botocudos, que passavam a ser consideradas devolutas e distribuídas como sesmarias, sobretudo entre os que se destacassem na guerra (ISA, s.d.).


A historiadora Regina Horta Duarte (1998) analisa a eficácia militar dos Botocudos nos combates que se seguiram. “Eles desenvolveram as estratégias guerreiras de forma singular, seja na relação tática com a selva em que habitavam, seja na ligação eficaz entre seu conhecimento da mata, suas armas e um tipo de luta baseada na surpresa. Para tais homens, a vida era inseparável da guerra” (DUARTE, 1998).


A Comissão Nacional da Verdade concluiu que pelo menos 8.350 indígenas foram mortos no período investigado, durante a ditadura militar, como parte de um continuum de violência que remonta ao período colonial (SMITH COLLEGE, s.d.).


---


7. O Reformatório Krenak e a violência institucional


Entre as páginas mais sombrias da história indígena brasileira está o Reformatório Agrícola Indígena (ou Centro de Reeducação Indígena Krenák), mantido sob a administração do capitão Manoel Pinheiro, da Polícia Militar de Minas Gerais.


“No Presídio eram mantidos em regime de cárcere, sofrendo repressões, como o confinamento em solitária e castigos físicos em casos de insubordinação” (ISA, s.d.). “Não só os Krenak conheceram a ‘cadeia’, como eles se referem ao reformatório. Pelo menos 94 indígenas de 15 etnias levados de 11 estados passaram por lá” (idem).


A criação da Guarda Rural Indígena (GRIN) pelo Capitão Pinheiro institucionalizou a violência contra os próprios indígenas, com índios recrutados para manter a ordem interna nas aldeias e denunciar infratores (ISA, s.d.).


---


8. O Rio Doce como Watu sagrado e a profanação de 2015


Para os Krenak, o Rio Doce é o Watu – um ser vivente, um ancestral, um ente sagrado. “Antes do desastre ambiental, eles entoavam cantos para o rio, se vestiam de maneira especial para festejar os espíritos do rio, realizavam Jogos Indígenas no rio. Agora tudo isso acabou” (VATICAN NEWS, 2017).


Geovane Krenak, em depoimento à COP23, afirmou: “Nosso povo, quase 700 pessoas, vivemos às margens do Rio Doce. Fomos atingidos de uma maneira que é difícil explicar. [...] Nosso povo se viu sem o seu principal protetor: o Watu, o rio sagrado” (VATICAN NEWS, 2017).


---


9. Os Sete Salões: território sagrado e disputa atual


Os Krenak reivindicam a posse das terras dos Sete Salões – um afloramento quartzítico composto por sete grutas interligadas, consideradas espaço sagrado. “Aquelas grutas significam algo mágico, espiritual e cheio de mistérios. Porque é o encontro do povo Krenak com os seus ancestrais” (UOL, 2023).


O estado de Minas Gerais, no entanto, criou o Parque Estadual de Sete Salões (Decreto nº 39.908/1998), uma unidade de conservação de proteção integral que não permite a circulação de seres humanos. “Os fazendeiros têm grande rivalidade com os Krenak, até porque eles usurparam a terra e querem continuar com seus privilégios, enquanto o povo tradicional reivindica o território” (UOL, 2023).


---


10. Ailton Krenak e o pensamento indígena contemporâneo


O líder e intelectual Ailton Krenak tornou-se uma das vozes mais influentes do pensamento ambiental e político brasileiro. Autor de Ideias para adiar o fim do mundo (2019) e A vida não é útil (2020), Krenak narra sua infância no Vale do Rio Doce e mantém vínculos com o território.


Em 1987, durante a Assembleia Nacional Constituinte, Krenak pintou o rosto com jenipapo em protesto contra a tese do “marco temporal”, tornando-se um símbolo da resistência indígena no Brasil.


---


11. O distrito de Roseiral e a memória indígena


Embora não haja terras indígenas demarcadas nos limites atuais de Mutum ou Roseiral, a presença botocuda/Krenak no Vale do Rio Doce é inconteste. A Prefeitura Municipal de Mutum registra a ocupação primitiva da região pelos Botocudos, com destaque para o chefe indígena Guido Pokrane (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.).


O distrito de Roseiral inscreve-se em um corredor histórico de passagem e disputa entre grupos indígenas. O alto grau de antropização da paisagem (cafeicultura, pastagens, eucalipto) pode ter suprimido quaisquer vestígios superficiais, mas a memória da ancestralidade permanece viva.


---


REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 9 (ORDEM ALFABÉTICA)


COSTA, Henrique Antônio Valadares; VILLAGRAN, Ximena Suarez. Arqueologia dos Botocudos no Espírito Santo. Revista de Arqueologia, v. 38, n. 2, p. 50-74, 2025.


DUARTE, Regina Horta. Histórias de uma guerra: os índios botocudos e a sociedade oitocentista. Revista de História (FFLCH-USP), n. 139, p. 35-53, 1998.


ISA – INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Povos Indígenas no Brasil – verbete Krenak. Disponível em: pib.socioambiental.org. Acesso em: 2 maio 2026.


KRENAK, Ailton. Depoimento. Revista Continente n. 196, abr. 2017.


MATTOS, Izabel Missagia de. Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas. Bauru: EDUSC, 2004.


PENA, Sergio Danilo. The redemption of the botocudos. Revista Pesquisa FAPESP, ed. 284, out. 2019.


PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. História. Disponível em: mutum.mg.gov.br/historia/. Acesso em: 2 maio 2026.


UOL – UNIVERSO ONLINE. Nas grutas dos Sete Salões estão a história e a força espiritual dos Krenak. 4 mar. 2023. Disponível em: uol.com.br.


VATICAN NEWS. Na COP23, o sofrimento do povo ancestral Krenak. 16 nov. 2017. Disponível em: vaticannews.va.


---


FIM DO CAPÍTULO 9