CAPÍTULO 11
FERROVIA: A ESTRADA DE FERRO VITÓRIA-MINAS (EFVM) E O DESENVOLVIMENTO REGIONAL
1. PANORAMA GERAL
No século XX o vale do Rio Doce serviu de caminho para a Estrada de Ferro
Vitória a Minas (EFVM) que impulsionou o crescimento de diversas localidades.
Fonte: Wikipédia — Rio Doce [citation:2]
A Estrada de Ferro Vitória a Minas foi primeiro a grande obra de infraestrutura
a romper o isolamento do Vale do Médio Rio Doce. Iniciada nos anos iniciais do
século XX, a EFVM alterou radicalmente a paisagem, a economia e a demografia
de toda a zona de influência de seus trilhos. Transcendendo as divisas entre
Espírito Santo e Minas Gerais, a ferrovia atuou como o eixo estruturador do
desenvolvimento de uma macrorregião, sendo um dos exemplos mais bem-sucedidos
de integração territorial, transporte de cargas e passageiros no Brasil, cuja
história se estende da economia cafeeira do início do século XX à mineração
do século XXI.
O projeto foi concebido e iniciado em uma época anterior à criação da própria
Vale, sendo posteriormente absorvido por ela para formar a base de seu sistema
logístico, tornando-se um dos casos mais emblemáticos da história da
infraestrutura ferroviária brasileira.
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2. CONTEXTO E CRONOLOGIA DA CONSTRUÇÃO
A criação da EFVM foi marcada por múltiplas fases, desde os primeiros
levantamentos de terrenos até sua consolidação como grande eixo de
integração.
2.1. Aprovação e início das obras
O primeiro trecho da ferrovia foi inaugurado em 13 de maio de 1904, conectando
Vitória a municípios capixabas próximos. O projeto da Estrada de Ferro Vitória
a Minas foi aprovado em 1902, e as obras seguiram em ritmo acelerado nas
primeiras décadas do século XX, impulsionadas pela necessidade de escoamento
da produção agrícola e mineral do interior mineiro.
A expansão da malha foi contínua: com uma extensão atual de 905 km e 601 km
de linhas duplas, a EFVM é uma ferrovia de bitola métrica que conecta a Região
Metropolitana de Vitória (ES) a Belo Horizonte (MG). A ferrovia alcançou
definitivamente a capital mineira em 1994, consolidando-se como a única no
Brasil a fornecer trens de passageiros com saídas diárias e serviço de longo
curso.
Em 2004, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) comemorou os cem anos de fundação
da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) que, apesar de representar apenas
3,1% de toda a malha ferroviária nacional, respondia por 40% de toda a carga
movimentada por trilhos no Brasil, o equivalente a 119 milhões de
toneladas/ano — das quais 80% já eram minério de ferro.
Fonte: Tecnologística — Estrada de Ferro Vitória a Minas: 100 anos de fundação
(15 jun. 2004) [citation:1]
2.2. Conexão com outras malhas
Com 809 quilômetros de linha (medidos em 2004, antes da expansão para Belo
Horizonte), a EFVM faz conexão com a Ferrovia Centro Atlântica (FCA), também
de propriedade da CVRD, e forma o corredor de transporte centroleste que liga
os Estados de Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso
do Sul, Tocantins, Bahia e Sergipe.
A EFVM permite o acesso aos portos capixabas de Tubarão, Praia Mole, Vitória,
Vila Velha e Portocel. Em Tubarão, está instalado o hump-yard, pátio
ferroviário com aproximadamente 200 quilômetros de linha.
Fonte: Tecnologística — EFVM: 100 anos de fundação [citation:1]
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3. A DUALIDADE ECONÔMICA: DO CAFÉ AO MINÉRIO DE FERRO
3.1. Objetivo inicial e mudança de foco
Embora seu traçado atual seja amplamente associado ao escoamento da produção
de minério de ferro, o objetivo inicial da ferrovia era, de fato, fomentar a
economia agrária da região. Tinha como objetivo inicial o transporte
ferroviário de passageiros e escoar a produção cafeeira do Vale do Rio Doce
e do Espírito Santo. No entanto, seu foco foi alterado em 1908, passando a
visar Itabira e a escoar o minério de ferro.
Essa mudança de rota transformou completamente a vocação da ferrovia e,
indiretamente, de toda a região do Médio Rio Doce. Em vez de se consolidar
como um eixo exclusivamente agrícola, a região tornou-se o corredor logístico
da mineração, o que trouxe desenvolvimento acelerado, mas também impactos
socioambientais profundos, incluindo o desmatamento associado à construção
da ferrovia e, posteriormente, o desastre do rompimento da barragem de
Fundão (2015), cujos rejeitos contaminaram toda a calha do rio Doce e
atingiram indiretamente os municípios do entorno, incluindo Mutum.
3.2. Capacidade de transporte
Com todo esse aparato, a estrada de ferro consegue movimentar por ano cerca
de 30% de toda a carga ferroviária do País. A logística da CVRD era
responsável por 16% de toda a movimentação de cargas no Brasil, 65% da
movimentação portuária de granéis sólidos e cerca de 39% da movimentação do
comércio exterior nacional à época do centenário (2004).
Fonte: Tecnologística — EFVM: 100 anos de fundação [citation:1]
No primeiro trimestre de 2004, os serviços de logística representaram 12,2%
da receita da CVRD, totalizando um faturamento de R$ 332 milhões. A receita
com transporte ferroviário alcançou R$ 261 milhões e com serviços portuários,
R$ 71 milhões.
3.3. Investimentos e expansão
A Vale aproveitou o evento comemorativo dos cem anos da EFVM para anunciar
novos investimentos para a ferrovia. Até o final de 2004, teria investido
US$ 195,4 milhões na aquisição de novos vagões, locomotivas, material rodante
e em tecnologia da informação.
A empresa anunciou ainda que pretendia comprar 5,3 mil vagões até 2010.
Já garantiu o investimento de R$ 8 milhões para a aquisição de 50 deles,
fabricados por meio do Consórcio Metalmecânico (Metalmec) firmado entre as
empresas HZM Industrial, Engeman e Saveli.
Fonte: Tecnologística — EFVM: 100 anos de fundação [citation:1]
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4. A CONSTRUÇÃO E OS DESAFIOS SANITÁRIOS NA REGIÃO DE MUTUM
4.1. Os obstáculos naturais e as doenças
A construção do trecho da ferrovia que corta o Vale do Médio Rio Doce, onde
hoje se situa Mutum, foi um empreendimento hercúleo e perigoso. A malária e a
febre amarela eram os maiores inimigos dos trabalhadores nos canteiros de obra,
especialmente nos trechos de mata fechada e alagadiços.
No trecho entre a atual Conselheiro Pena e Governador Valadares, uma equipe
liderada pelo engenheiro Nestor Gomes foi forçada a interromper os serviços,
pois sua tropa foi atacada por doenças como a malária e a febre amarela.
Posteriormente, outro engenheiro, Ceciliano Abel de Almeida, assumiu a árdua
tarefa de avançar pela mesma região após a morte de seu antecessor, relatando
ter adotado medidas preventivas, como as pílulas de sulfato de quinina, para
sua equipe.
4.2. A infraestrutura pré-existente
O trecho descrito como um dos mais assustadores no relato do engenheiro
correspondia ao distrito de Barra do Cuité — atual foz do rio Caratinga — que
ofereceu uma estrutura prévia, pois ali estava localizado um dos quartéis da
Sexta Divisão Militar do Rio Doce, criada pelo príncipe regente Dom João para
promover a ocupação da região.
Essa ocupação prévia — com quartéis, estradas de ligação e pequenos núcleos
populacionais — foi fundamental para que a ferrovia pudesse avançar com
relativa rapidez a partir dali, conectando os sertões mineiros à costa
capixaba.
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5. IMPACTO URBANIZADOR E O LEGADO REGIONAL
5.1. Crescimento econômico e populacional
A construção da EFVM foi fator determinante para a alteração da paisagem e a
geração de desenvolvimento econômico e social nas regiões por onde passou,
servindo como poderoso fator de povoamento e progresso regional. No contexto
do Vale do Rio Doce, isso estimulou o crescimento populacional do entorno,
como ocorrido na região do Vale do Aço nas décadas de 1910 e 1920.
A presença da ferrovia atraiu comércio, serviços e indústrias para as cidades
localizadas ao longo de seus trilhos. Governador Valadares, Ipatinga, Coronel
Fabriciano e outras cidades do Vale do Aço devem grande parte de seu
crescimento à EFVM.
5.2. A EFVM e o distrito de Roseiral / Mutum
Embora a estação ferroviária mais relevante para o fluxo de pessoas que hoje
se dirigem ao distrito de Roseiral e ao município de Mutum esteja em outra
cidade — provavelmente Conselheiro Pena ou Governador Valadares —, não se pode
negar que a malha férrea e o dinamismo econômico por ela gerado foram
fundamentais para a consolidação da região.
A localização de Mutum e seus distritos no Médio Rio Doce, inseridos na zona
de influência da EFVM, permitiu o escoamento da produção agropecuária (café,
leite, queijos) e a chegada de insumos e mercadorias essenciais para o
desenvolvimento local. A ferrovia também facilitou o deslocamento de pessoas,
ainda que Mutum não possua estação própria no ramal principal.
5.3. A Vale como agente de desenvolvimento regional
A Vale, por meio da EFVM, atuou como um agente de desenvolvimento regional
para além do transporte de minérios. Os investimentos em infraestrutura, os
programas sociais e ambientais e a geração de empregos diretos e indiretos
marcaram profundamente as comunidades do entorno.
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6. O SERVIÇO DE PASSAGEIROS E A MEMÓRIA VIVA
6.1. O único trem diário de passageiros do Brasil
Um dos aspectos mais impressionantes e singulares da EFVM na atualidade é
seu serviço de trens de passageiros, que mantém viva a tradição e a memória
do período áureo do transporte ferroviário brasileiro.
O comboio operado pela Vale percorre a ferrovia Vitória-Minas em 13 horas
como o único trem diário de passageiros em atividade no Brasil.
Atualmente, cerca de 700 mil pessoas são transportadas anualmente neste
trajeto de 664 quilômetros que une as capitais mineira e capixaba, realizando
30 paradas. O trem oferece conforto, segurança e preços acessíveis, sendo
utilizado por trabalhadores, estudantes, turistas e moradores das cidades do
entorno que se deslocam diariamente.
6.2. Ameaças e desafios ao serviço
O papel da EFVM como elo de ligação é tão ativo que qualquer interrupção em
seus serviços gera impactos imediatos. Recentemente, um bloqueio realizado
por um grupo de indígenas, que durou vários dias e causou sérios prejuízos
ao transporte de combustíveis e cargas, também refletiu no serviço de
passageiros, deixando de transportar dezenas de milhares de pessoas entre
Belo Horizonte (MG) e Cariacica (ES).
A continuidade do serviço de passageiros é incerta e depende de decisões
governamentais e da política tarifária da Vale. A manutenção do trem é
custosa, e há pressões para que a empresa se concentre apenas no transporte
de cargas. A eventual extinção do trem de passageiros representaria uma perda
cultural e logística irreparável para as comunidades da Bacia do Rio Doce.
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7. A FERROVIA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL E INDUSTRIAL
A EFVM não é apenas uma via de transporte; é também um patrimônio cultural
e industrial de valor incalculável. Suas estações ferroviárias históricas,
pontes, viadutos, túneis e o próprio material rodante (locomotivas a vapor
preservadas, vagões antigos) contam a história da industrialização brasileira
e da integração nacional.
Algumas estações da EFVM foram tombadas ou estão em processo de preservação
por órgãos municipais, estaduais e federais (IPHAN). A memória da ferrovia
é celebrada em museus, festas populares (como a Festa do Tropeiro, em Ibatiba,
que remete à cultura que antecedeu a ferrovia) e na literatura regional.
A preservação da memória da EFVM é essencial para que as futuras gerações
compreendam como a ferrovia moldou a região e como a Vale — e a mineração —
se tornaram centrais para a economia e a identidade do Vale do Rio Doce.
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8. A FERROVIA E O VALE DO RIO DOCE: CONEXÕES E CONTRASTES
O Rio Doce, que dá nome à bacia, teve importância decisiva na conquista do
Espírito Santo e de Minas Gerais pelos europeus. Pelo seu vale, no século
XVIII penetraram sertanistas e exploradores como Sebastião Fernandes Tourinho,
Antônio Dias de Oliveira e Borba Gato. No século XIX foi a vez de
pesquisadores como o príncipe renano Maximilian von Wied-Neuwied, a princesa
Teresa da Baviera, e Frederico Sellow, botânico que morreu afogado em suas
águas.
Fonte: Wikipédia — Rio Doce [citation:2]
No século XX, a ferrovia sucedeu aos sertanistas e pesquisadores como o grande
vetor de transformação da paisagem e da sociedade do Vale. Enquanto os antigos
caminhos seguiam os vales dos rios e as picadas abertas pelos indígenas, a
ferrovia impôs uma lógica linear, técnica, acelerada. Onde o rio e a tropa
demandavam semanas, o trem passou a demandar horas.
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9. QUADRO‑SÍNTESE: A EFVM EM NÚMEROS
| Indicador | Dados (referência 2004/2025) |
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| Extensão total (2004) | 809 km [citation:1] |
| Extensão total (atual) | 905 km + 601 km de linhas duplas |
| Inauguração do primeiro trecho | 13 de maio de 1904 [citation:1] |
| Aprovação do projeto | 1902 [citation:1] |
| Bitola | Métrica |
| Participação na malha nacional | 3,1% [citation:1] |
| Participação na carga nacional | 40% (119 mi t/ano) [citation:1] |
| Percentual de minério na carga | 80% [citation:1] |
| Conexões com outras ferrovias | FCA (Ferrovia Centro Atlântica) [citation:1] |
| Portos atendidos | Tubarão, Praia Mole, Vitória, Vila Velha, Portocel [citation:1] |
| Passageiros/ano (estimado, 2025) | ~700.000 |
| Duração da viagem Vitória–Belo Horizonte | 13 horas |
| Número de paradas (viagem de passageiros) | 30 |
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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 11
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TECNOLOGÍSTICA. Estrada de Ferro Vitória a Minas: 100 anos de fundação.
15 jun. 2004. Disponível em: tecnologistica.com.br [citation:1]
WIKIPÉDIA. Rio Doce. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Doce [citation:2]
WIKIPÉDIA. Estrada de Ferro Vitória a Minas. Disponível em:
pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Vitória_a_Minas
DIÁRIO DO RIO DOCE. Ferrovia, selva e doenças: a construção da Estrada de
Ferro Vitória a Minas. Prof. Haruf Salmen Espindola. 19 set. 2021.
Disponível em: drd.com.br
VALE S/A. Trem de Passageiros Vale – Conforto e Segurança. Disponível em:
vale.com/pt/trem-de-passageiros
PORTAL DA MINERAÇÃO. 120 anos da Estrada de Ferro Vitória a Minas: conheça a
sua importância. 10 jun. 2024. Disponível em: portaldamineracao.com.br
REVISTA CPC (USP). A Estrada de Ferro Vitória a Minas e sua possível valoração
como patrimônio. Nívea Muniz Vieira. n. 21, p. 71-102, jan./jul. 2016.
DOI: 10.11606/issn.1980-4466.v0i21p71-102. Disponível em: revistas.usp.br
ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO (APM). Acervo da Companhia Vale do Rio Doce
(referências à EFVM). Disponível em: atom.arquivopublico.mg.gov.br
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FIM DO CAPÍTULO 11
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