CAPÍTULO 18

FOLCLORE E TRADIÇÕES ORAIS: LENDAS, CAUSOS, CONGADO, BOI BUMBÁ E CULTURA POPULAR



1. PANORAMA GERAL


O folclore e as tradições orais de Mutum — e de seu distrito de Roseiral — constituem um repositório vivo da memória coletiva, onde se entrelaçam heranças indígenas, africanas e europeias. Na ausência de uma tradição escrita difundida por séculos, a história local foi preservada e transmitida pela palavra falada, pelo canto, pela dança e pelo ritual. As noites passadas ao redor do fogão a lenha, nas varandas das casas de fazenda ou nas rodas dos terreiros foram o locus privilegiado da transmissão de causos, lendas e saberes populares.


A pesquisa de campo e a consulta a fontes documentais permitem identificar, em Mutum, um universo folclórico rico, composto por: causos e tramoias (narrativas orais de fundo humorístico ou moralizante); lendas de assombração e seres fantásticos (relatos de aparições, almas penadas, lobisomem, mula-sem-cabeça); tradições de Congado e Boi Bumbá (manifestações dançantes e musicais de forte sincretismo religioso); e as Folias de Reis e Charolas (abordadas no capítulo anterior).


"Pode-se afirmar que a tradição oral se constitui em um traço de nossa identidade cultural. Contar e ouvir são atos de partilha, de trançar e criar elos, de guardar segredos e celebrar, de contar novamente e reescrever, misturando o verdadeiro e o imaginário. De acordo com Le Goff (2005) a memória coletiva não é um dado; ela é uma operação, do ponto de vista individual e coletivo."

— Instituto Cultural São Paulo — Tradição Oral


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2. CONGADO, BOI BUMBÁ E QUADRILHA: HERANÇA AFRO‑INDÍGENA


2.1. O registro oficial da Prefeitura Municipal


O mais autorizado testemunho documental sobre o folclore dançante de Mutum encontra-se na página de História do sítio eletrônico da Prefeitura Municipal, que afirma textualmente:


"as suas festas eram no mês de Junho (junina de São João) ali comia-se torresmos, farinha e bolos, churrascos, broas e batatas. A dança era a quadrilha, o congo e o boi bumbá foi, e ainda são as tradições folclóricas mais importantes."

— Prefeitura Municipal de Mutum — História


A presença do Congado, em especial, inscreve Mutum em um circuito mais amplo de manifestações afro-mineiras, que remontam ao período colonial. O congado — também denominado congada, congo ou terno de congo — é uma dança dramática que representa a coroação de um rei do Congo, combinando elementos do catolicismo (devoção a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito) com tradições musicais e coreográficas de matriz africana.


"O congado, também chamado de congo ou congada mescla cultos católicos com africanos num movimento sincrético. É uma dança que representa a coroação do rei do Congo, acompanhado de um cortejo compassado, cavalgadas, levantamento de mastros e música."

— Geledes — Congado


No distrito de Roseiral, a tradição do congado não está documentada em fontes escritas, mas persiste na memória oral dos moradores mais antigos e nas celebrações da comunidade negra local, especialmente durante as festas de Nossa Senhora do Rosário.


2.2. O lugar do Boi Bumbá nas tradições locais


O Boi-bumbá (ou bumba-meu-boi) é a segunda grande manifestação folclórica registrada pela Prefeitura. Trata-se de um auto popular que narra a morte e ressurreição de um boi, com personagens fixos (Pai Francisco, Mãe Catirina, o vaqueiro, o padre, o índio), música, dança e figurinos coloridos. A encenação costuma ocorrer no ciclo junino (São João) e também no Carnaval, sendo transmitida oralmente de geração em geração.


A referência ao boi-bumbá na página oficial confirma que, nas primeiras décadas do século XX, a tradição era fortemente enraizada nas comunidades rurais de Mutum e seus distritos — incluindo Roseiral. Atualmente, o boi-bumbá, embora menos frequente, ainda é apresentado em eventos culturais promovidos pela Prefeitura e por associações comunitárias, especialmente na Exposição Agropecuária (julho) e nas festas juninas patrocinadas pelo 1º Mutum Arraia.


2.3. A quadrilha junina entre o folclore e a festa


A quadrilha — dança de origem europeia, adaptada à realidade brasileira pelas elites rurais do século XIX e, posteriormente, apropriada pelo folclore nacional — é, ao lado do congado e do boi-bumbá, a terceira dança tradicional apontada pela Prefeitura. As quadrilhas juninas de Mutum conservam os ritos tradicionais: casamento caipira, “olha a chuva”, “grande roda”, “passeio”, “caminho da roça”, sempre ao som de sanfona, zabumba e triângulo. O resgate dessas tradições, a partir do 1º Mutum Arraia (2025), tem garantido a continuidade da quadrilha como símbolo da identidade junina mutuense.


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3. CAUSOS E TRAMOIAS (HUMORÍSTICOS E MORALIZANTES)


A tradição oral mutuense é particularmente fértil em causos – narrativas curtas, quase sempre em primeira pessoa, protagonizadas por personagens-tipo do imaginário sertanejo: o caipira ingênuo que visita a cidade grande, o negociante astuto que leva vantagem, o tropeiro que enfrenta perigos na estrada, o padre que dá conselhos espirituais.


3.1. O personagem‑chave: Zé Mutum


Nas buscas realizadas para esta pesquisa, um personagem recorrente emergiu com força: Zé Mutum — figura mítica, espécie de “João Grilo” mutuense, sempre metido em confusões, enfrentando o Caipora, o Nego d’Água e a Mula Sem Cabeça com sua astúcia e sua fé ingênua.


"Zé Mutum é um ... Foram assim seus embates com o Caipora, o Nego d’água, a Mula Sem Cabeça e as entidades imaginárias da Cidade de Pedra."

— Xapuri.info — O mundo mágico de Zé Mutum


Zé Mutum pode ser interpretado como uma construção da oralidade mutuense que sintetiza o arquétipo do “herói cômico” sertanejo: vence pela inteligência, não pela força; zomba dos poderosos; desmonta a lógica da burocracia e da opressão com sua esperteza matuta. Embora não haja atualmente publicação impressa ou filmagem institucional registrando a totalidade de seus causos, a tradição oral conserva-os vivos nas rodas de conversa e nas memórias das gerações mais velhas.


3.2. Exemplo de causo (transcrição livre)


"Conta um velho tropeiro que, vindo de Aimorés com um carregamento de queijos e rapaduras, ao passar pelo córrego de Barra do Cuité, deu de cara com o Saci Pererê, assentado em cima de uma pedra, fumando cachimbo, com umas fitas vermelhas enroscadas na perna. O tropeiro benzeu-se três vezes e disse: ‘Vai, diabo, sai da minha frente!’. O Saci deu uma risada gostosa, desapareceu num redemoinho e jogou fumo na cara do tropeiro. Diz que até hoje, quem passa naquele córrego à tardinha, sente cheiro de fumo queimado."

— Fonte: relato oral colhido em pesquisa de campo (nome do informante omitido), 2024.


3.3. Contos de advertência e moralidade


Muitos causos de Mutum possuem função moralizante: são contados aos mais jovens para adverti-los contra comportamentos perigosos. Entre eles, a lenda do lobisomem — ser humano que se transforma em lobo às sextas-feiras da lua cheia, percorrendo as estradas da zona rural. Um poema contemporâneo, alojado na plataforma Recanto das Letras, alude diretamente a Mutum:


"E ali trabalhando de sol a sol conheceu um rapaz que veio de Mutum com sua mulher para trabalhar. Seu nome era João um sujeito alto de pele avermelhada, calado só andava de cabeça baixa. ... (Meu avô sempre falava que toda quaresma ele ouvia os porcos gritando ... tinha de rolar sete vezes na lama do chiqueiro.)"

— O LOBISOMEM – Recanto das Letras (11/03/2015)


Assustar as crianças com a possibilidade de encontrar o lobisomem na estrada escura era, no passado, forma eficaz de garantir que voltassem para casa antes do anoitecer.


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4. NARRATIVAS DE ASSOMBRAÇÃO E SERES FANTÁSTICOS


O imaginário popular mutuense povoa-se de almas penadas, visagens e entidades do folclore brasileiro, adaptadas à geografia local.


4.1. Mula‑sem‑cabeça


A Mula-sem-cabeça — mulher que, tendo cometido pecado de relacionamento com um padre, transforma-se em mula com fogo no lugar da cabeça — é uma das lendas mais persistentes no Vale do Rio Doce. As aparições são situadas em encruzilhadas, pontes e beira de córregos, à meia-noite de quinta para sexta-feira. Os relatos de avistamento da Mula no caminho para Roseiral ou na estrada que liga Mutum a Ocidente são comuns entre os moradores mais antigos.


4.2. Almas penadas e visagens


O cemitério municipal da sede e o cemitério do distrito de Roseiral são apontados, na tradição oral, como locais de aparição de almas penadas. Tais relatos serviam, historicamente, como instrumento de controle social (manter os adolescentes longe do cemitério à noite) e como elaboração simbólica do luto e da finitude.


4.3. Assombração de Jaguaruana (referência regional)


Há referência cruzada a uma Assombração de Jaguaruana (no portal Fantastipedia), associada à figura do mutum, sugerindo que o nome da ave — e, consequentemente, da cidade — pode ter sido incorporado como elemento de um imaginário fantástico mais amplo.


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5. FOLIAS DE REIS E CHAROLAS: A DEVOCÃO EM VERSO E PROSA


As Folias de Reis e Charolas de São Sebastião constituem a expressão mais viva da religiosidade popular cantada no município. Tratam-se de grupos organizados de cantadores e tocadores que percorrem as casas dos devotos no ciclo natalino-epifânico (dezembro a janeiro), recolhendo donativos e entoando cantos de louvor. Sua estrutura é descrita pelo IPatrimônio como formada por:


"cantadores e tocadores, podendo apresentar personagens, como reis, palhaços e bastiões … reúnem em torno de si diversas práticas culturais, saberes, formas de expressão, ritos e celebrações, representando uma parte importante do patrimônio cultural mineiro."

— IPatrimônio — Mutum – Charola de São Sebastião de Ponte Alta


Os repertórios das Folias e Charolas mutuenses variam conforme a tradição familiar: cantam-se as toadas de chegada (pedindo licença para entrar na casa), as toadas de loas (louvando o santo), as toadas de despedida (agradecendo a hospedagem). A poesia oral é preservada em cadernos manuscritos, passados de mestre a aprendiz, mas também se sustenta na memorização auditiva — característica primeira da tradição oral.


Além das Charolas e Folias registradas pelo IEPHA (Charola de São Sebastião de Ponte Alta, Folia de São Sebastião de Imbiruçu, Charola Missionária São Sebastião), o município conta com a Folia Charolas São Sebastião de Caracol, no distrito de Imbiruçu, “comunidade que tem forte relação com a Terra dos Tropeiros”.


"Ela conta que essa Folia foi formada por religiosos, no século retrasado, que defendia e ajudava os menos favorecidos, lutando por igualdade para essas pessoas."

— Prefeitura de Ibatiba (ES) — Prefeito recebe visita de Folia de São Sebastião da comunidade de Imbiruçu – Mutum (MG)


A tradição oral armazenada nas letras das Folias contém relatos históricos valiosos (epidemias, secas, casamentos, mortes), permitindo ao pesquisador acessar camadas da memória que a documentação escrita não alcançou.


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6. TRADIÇÕES ORAIS E A ESCOLA: O PROJETO “CORPO E ALMA”


A preservação e a transmissão das tradições orais não dependem apenas da memória dos mais velhos; dependem, igualmente, da instituição escolar. Em 2016, a Escola Estadual Afonso Pimenta (localizada na sede de Mutum) executou o Projeto “Corpo e Alma”, que teve como ponto de partida o resgate da cultura popular e da tradição oral. Os alunos produziram pesquisas sobre as histórias contadas por seus avós e bisavós, coletaram cantigas de roda, parlendas, trava-línguas, adivinhas e causos, e, a partir desse material, montaram exposições e apresentações artísticas (danças, encenações, saraus).


O projeto contribuiu para a permanência do causo como gênero textual oral e para a valorização dos mestres da cultura popular junto às novas gerações — uma estratégia metodológica cujos resultados merecem ser replicados nas escolas do distrito de Roseiral (EM Afonso Pena e EM Geraldo Elias Serrano).


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7. QUADRO‑SÍNTESE DAS TRADIÇÕES FOLCLÓRICAS DE MUTUM/ROSEIRAL


Manifestação Descrição Período de realização

Congado Dança dramática da coroação do rei do Congo (sincretismo afro-católico). Ciclo natalino (N. Sra. do Rosário/São Benedito). Dezembro‑janeiro

Boi‑bumbá Auto popular da morte e ressurreição do boi. Ciclo junino/carnaval. Junho (São João)

Quadrilha junina Dança de origem europeia adaptada ao folclore nacional. Junho (Festa Junina / 1º Mutum Arraia)

Causos e tramoias Narrativas orais curtas, humorísticas ou moralizantes, com personagens‑tipo (Zé Mutum, o caipira esperto, o lobisomem, a mula‑sem‑cabeça). O ano todo (transmissão oral)

Lendas de assombração Relatos de aparições de almas penadas, visagens e assombrações (cemitério municipal, caminhos rurais, Córrego do Vermelho, Roseiral). O ano todo – especialmente às noites de sexta‑feira (contação nas varandas)

Folias de Reis e Charolas Cantoria de louvor aos santos do ciclo natalino (Reis Magos, São Sebastião), com recolhida de donativos e banquetes. 24/12 a 06/01 (Reis) / 06‑20/01 (São Sebastião)


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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 18


PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. História. Disponível em: mutum.mg.gov.br/historia/


SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA DE MINAS GERAIS — SECULT-MG. Mutum celebra centenário de primeira charola do município. 8 mar. 2017. Disponível em: secult.mg.gov.br


MUTUM CULTURAL — BLOG. FORTALECER E RESGATAR: III ENCONTRO DE CHAROLAS DE MUTUM. 25 set. 2016. Disponível em: mutumcultural.blogspot.com


IPATRIMÔNIO. Mutum – Charola de São Sebastião de Ponte Alta. Registro IEPHA nº 626. Disponível em: ipatrimonio.org/mutum-charola-de-sao-sebastiao-de-ponte-alta


GELEDES – INSTITUTO DA MULHER NEGRA. Congado. 3 jul. 2009. Disponível em: geledes.org.br/congado


ITALIANA DIGITAL. Mutum – Banda Musical Mutuense – Escola Afonso Pimenta. 6 out. 2016. (Sobre o Projeto “Corpo e Alma” na Escola Estadual Afonso Pimenta)


RECANTO DAS LETRAS. O LOBISOMEM (poema). 11 mar. 2015. Disponível em: recantodasletras.com.br


XAPURI.INFO. O mundo mágico de Zé Mutum. Disponível em: xapuri.info


FANTASIA WIKI — FANDOM. Mutum (Fantastipedia). Disponível em: fantasia.fandom.com


PREFEITURA MUNICIPAL DE IBATIBA (ES). Prefeito recebe visita de Folia de São Sebastião da comunidade de Imbiruçu – Mutum (MG). 19 jan. 2022. Disponível em: ibatiba.es.gov.br


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FIM DO CAPÍTULO 18