CAPÍTULO 3

HIDROGRAFIA: BACIA DO RIO DOCE, RIOS SÃO MANOEL, MUTUM E JOSÉ PEDRO




CAPÍTULO 3


HIDROGRAFIA: BACIA DO RIO DOCE, RIOS SÃO MANOEL, MUTUM E JOSÉ PEDRO


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1. O gigante adormecido: a Bacia do Rio Doce


Quem olha o Rio Doce num mapa pode não imaginar a imensidão de sua bacia. “A bacia do rio Doce é uma bacia hidrográfica brasileira que está situada na Região Sudeste do país. Pertence à região hidrográfica do Atlântico Sudeste e compreende uma área de drenagem de 86.175 quilômetros quadrados (km²) segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH-Doce), abrangendo total ou parcialmente 229 municípios. Desse total, 203 estão em Minas Gerais e 26 no Espírito Santo” (WIKIPÉDIA, 2026).


A nascente do rio Doce propriamente dito se dá pela confluência dos rios Piranga e do Carmo, entre os municípios de Ponte Nova, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado (MG). “O rio Doce nasce no Estado de Minas Gerais, nas serras da Mantiqueira (Ressaquinha) e do Espinhaço (Ouro Preto), e após um percurso de cerca de 850 km o curso d’água principal atinge a foz da bacia no oceano Atlântico, localizada no Povoado de Regência, Estado do Espírito Santo” (ARSAM, 2023). A bacia abriga cerca de 3,5 milhões de habitantes, e “o uso antrópico predominante na BH-Doce é a pastagem, que ocupa 59% da bacia, seguida das áreas agrícolas (5%) e áreas reflorestadas (4%). A vegetação nativa, segundo estudo publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em 2016, estava presente em 27% da área” (ARSAM, 2023). “Atualmente, esse percentual é certamente menor, haja vista o desmatamento que ocorre na região, como o publicado pelo SOS Mata Atlântica que evidencia que somente entre 2018 e 2019, na bacia do rio Doce, foram desmatados 1.857 hectares de Mata Atlântica” (idem).


Do ponto de vista fitogeográfico, a bacia apresenta 2% de sua área inserida no bioma Cerrado e 98% no bioma Mata Atlântica (CBH-Doce, 2024). Para efeitos de planejamento, ela é subdividida em Alto, Médio e Baixo Rio Doce. Mutum e Roseiral situam‑se no Médio Rio Doce, uma região de transição entre as nascentes serranas e a planície capixaba.


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2. A sub‑bacia que abraça Mutum: o Rio Manhuaçu (DO6)


O Rio Manhuaçu é o principal afluente do Rio Doce pela margem direita e a espinha dorsal hídrica do território de Mutum. O IGAM (Instituto Mineiro de Gestão das Águas) o classifica como Unidade de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos DO6. “A bacia (hidrográfica do Rio Manhuaçu) abrange uma área de 8.805 km² a 9.189 km², representando cerca de 10,5% da bacia do Rio Doce. O rio Manhuaçu nasce a 825 metros de altitude e deságua a 80 metros. A região é altamente suscetível à erosão devido ao solo, relevo acidentado, chuvas fortes e longos períodos de estiagem” (CBH-MANHUAÇU, 2013).


O rio Manhuaçu nasce na Serra da Seritinga, em São João do Manhuaçu, e percorre 288 km até sua foz no Rio Doce, no município de Aimorés (MG). Sua vazão média na foz é de 72,2 m³/s (CBH-MANHUAÇU, 2013). “A economia é baseada nos setores de serviços e agropecuária. O cultivo de café e cana-de-açúcar são as principais atividades agrícolas, representando um alto consumo de recursos hídricos” (idem).


Para os moradores de Mutum e Roseiral, a bacia do Manhuaçu é a referência direta. Seus afluentes – os rios Mutum, José Pedro, São Manoel (ou São Manuel) – são os que correm em suas terras, que abastecem suas casas e que, infelizmente, também sofrem com o assoreamento e a poluição.


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3. Os rios que correm em nossas terras


3.1. Rio José Pedro: das alturas do Caparaó


O Rio José Pedro é o principal afluente do rio Manhuaçu pela margem direita. “Suas nascentes estão localizadas no Parque Nacional do Caparaó (Serra do Caparaó)” (CBH-MANHUAÇU, 2013). A altitude de suas cabeceiras ultrapassa os 1.500 metros, o que lhe confere águas cristalinas e grande potencial para o ecoturismo. Ele percorre cerca de 110 km (dado estimado) até desaguar no Manhuaçu.


O rio José Pedro banha parte do território de Mutum e passa nas proximidades do distrito de Roseiral. “O rio José Pedro teve suas águas seriamente impactadas pelo rompimento da barragem de Fundão (2015), que causou grande destruição e mortandade de peixes” (PORTAL CAPARAÓ, 2016). Ainda hoje, a qualidade de suas águas é monitorada, e os moradores mais antigos lembram de quando podiam pescar e nadar sem medo.


3.2. Rio São Manoel (ou São Manuel): o afluente que nasce na Pedra Santa


“Quase toda a sua extensão está dentro de Mutum” (WATERWAYMAP, 2026) – essa frase resume a importância do Rio São Manoel para o município. Ele é o maior afluente do Rio José Pedro e o segundo maior contribuinte em recursos hídricos da Bacia do Rio Manhuaçu. “A primeira nascente está localizada na Pedra Santa, no distrito de Imbiruçu, na divisa de Mutum com o Espírito Santo” (PREFEITURA DE MUTUM, 2025).


O rio corre em linha reta para o sul e depois faz uma curva brusca para o leste. Tem extensão total de 69 km e seus principais afluentes são o Rio Humaitá e o Rio Mutum (WATERWAYMAP, 2026). “O rio São Manoel percorre uma grande área do município de Mutum e também serve como fonte de captação de água para a cidade” (PREFEITURA DE MUTUM, 2025).


3.3. Rio Mutum: o homônimo que dá nome à cidade


O Rio Mutum é um pequeno afluente do Rio São Manoel, mas sua importância simbólica é enorme – foi ele que inspirou o nome do município. “O rio nasce no noroeste de Mutum a aproximadamente 250 metros de altitude” (viajandar, 2024). Tem cerca de 10 km de extensão dentro do território municipal e, apesar de pequeno, “é um dos principais afluentes da região, ideal para passeios de barco e atividades de lazer em contato com a natureza” (VIAJANDAR).


Infelizmente, o Rio Mutum também é um termômetro da crise hídrica local. Em 2016, “a Copasa informa que nos últimos dias foi registrada uma redução drástica do volume de água normalmente captado pela empresa, no Rio Mutum, manancial utilizado pela Copasa para o abastecimento do município de Mutum … estiagem na bacia hidrográfica do Rio Mutum” (COPASA, 2016). O racionamento que se seguiu serviu de alerta: a água não é inesgotável, e a preservação das nascentes é uma urgência.


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4. Assoreamento, poluição e a “morte silenciosa” dos rios


“Uns dos principais impactos ambientais identificados na bacia do rio Doce é a degradação de seus cursos d’água. O desmatamento indiscriminado e o manejo inadequado do solo criaram condições favoráveis à formação do processo erosivo, que somado aos efluentes advindos da mineração e de resíduos industriais e domésticos, dão contínuo processo de assoreamento dos leitos dos cursos de águas da bacia, além da qualidade marginal da água em vários trechos” (ATLAS DIGITAL DAS ÁGUAS DE MINAS, 2021).


A magnitude do problema é alarmante: “Nós perdemos em torno de 140 milhões de toneladas de solo todos os anos para dentro do próprio Rio Doce, que tinha três metros de profundidade …” (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESPÍRITO SANTO, 2024). Esse assoreamento não é um fenômeno natural; é o resultado de décadas de desmatamento das encostas, de ocupação irregular das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de práticas agrícolas inadequadas.


A qualidade da água nos rios de Mutum – São Manoel, Mutum e José Pedro – é afetada por três fontes principais: agroquímicos (fertilizantes e agrotóxicos usados nas lavouras de café e eucalipto), esgoto doméstico (0% do esgoto tratado em 2022) e, em menor escala, os rejeitos da mineração que ainda contaminam os sedimentos da calha do Rio Doce.


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5. A gestão das águas: comitês, planos e desafios


“O CBH-Doce é um órgão colegiado, com atribuições normativas, deliberativas e consultivas, no âmbito da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, vinculado ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH” (CBH-DOCE, 2024). Ele é composto por 60 membros titulares e 60 suplentes, sendo 33% do poder público, 40% de usuários e 27% da sociedade civil. “CBH Doce é o primeiro comitê de bacia interestadual do país a aprovar o enquadramento de corpos d’água” (COMITÊS IGAM, 2023).


Em nível local, a Bacia do Rio Manhuaçu (DO6) tem seu próprio comitê (CBH-Manhuaçu), que aprova planos e outorgas. “No âmbito do PIRH Doce, foram previstas 68 ações no total, agrupadas em 17 programas, dirigidos ao conjunto da bacia e adequados às especificidades de cada bacia afluente, sob o conceito de plano integrado de recursos hídricos” (ANA, 2010).


Apesar do arcabouço institucional, a implementação das ações é lenta. Mutum não possui representação direta no CBH-Doce (é representado indiretamente pelos entes da bacia do Manhuaçu), e os projetos de recuperação hidroambiental no distrito de Roseiral são ainda inexistentes. A esperança reside nos programas estaduais (PROCASE, Projeto Manuelzão) e nos projetos de restauração florestal (Terra Doce, Reflorestar Doce) que, aos poucos, começam a chegar à região.


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6. O que esses rios nos ensinam


Os rios de Mutum e Roseiral não são apenas canais de drenagem. São testemunhas da história: os tropeiros bebiam de suas águas, as lavadeiras batiam roupa em suas pedras, as crianças pescavam e nadavam. Hoje, muitos deles estão doentes – assoreados, poluídos, esquecidos. Mas ainda há tempo de reverter o quadro.


A “reversão do quadro de degradação do rio Doce é possível e passa, principalmente, pela revitalização das bacias dos rios afluentes” (CBH-DOCE, 2016). Para Mutum e Roseiral, isso significa proteger as nascentes, recuperar as matas ciliares e tratar o esgoto. É um trabalho de formiga, mas é o único caminho para que as próximas gerações possam, novamente, se banhar em águas cristalinas.


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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 3 (ORDEM ALFABÉTICA)


ANA – AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Brasília: ANA, 2010.


ARSAM – ARSAE MG. Bacia Hidrográfica do rio Doce – Programa REGAR. 2023. Disponível em: arsae.mg.gov.br. Acesso em: 2 maio 2026.


ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESPÍRITO SANTO. Ações para preservar o Rio Doce em pauta. 18 mar. 2024. Disponível em: al.es.gov.br. Acesso em: 2 maio 2026.


ATLAS DIGITAL DAS ÁGUAS DE MINAS – UFV. Impacto ambiental relevante na bacia do rio Doce – Erosão, o inimigo silencioso do rio Doce. 2021. Disponível em: atlasdasaguas.ufv.br. Acesso em: 2 maio 2026.


CBH-DOCE – COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DOCE. Institucional – A Bacia. 2024. Disponível em: cbhdoce.org.br. Acesso em: 2 maio 2026.


CBH-DOCE – COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DOCE. CBH‑Doce avalia impactos seis meses após a tragédia de Mariana. 5 maio 2016. Disponível em: cbhdoce.org.br. Acesso em: 2 maio 2026.


CBH-MANHUAÇU – COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA ÁGUAS DO RIO MANHUAÇU. A Bacia (Hidrográfica do Rio Manhuaçu). 2013. Disponível em: cbhmanhuacu.org.br. Acesso em: 2 maio 2026.


COMITÊS IGAM. CBH Doce – Primeiro comitê interestadual a aprovar enquadramento. 2023. Disponível em: comites.igam.mg.gov.br. Acesso em: 2 maio 2026.


COPASA – COMPANHIA DE SANEAMENTO DE MINAS GERAIS. Rodízio em Mutum de 12 a 18/09/2016 – redução drástica do volume de água captado no Rio Mutum. Comunicado oficial, 2016.


PORTAL CAPARAÓ. Rio José Pedro e os impactos do desastre de 2015. 2016. Disponível em: portalcaparao.com.br. Acesso em: 2 maio 2026.


PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. Localização – hidrografia. 2025. Disponível em: mutum.mg.gov.br/localizacao/. Acesso em: 2 maio 2026.


VIAJANDAR. Tudo sobre Mutum – rios e lazer. 2024. Disponível em: viajandar.com.br. Acesso em: 2 maio 2026.


WATERWAYMAP. Rio São Manuel – 69 km, Brazil. Disponível em: waterwaymap.org. Acesso em: 2 maio 2026.


WIKIPÉDIA. Bacia do rio Doce. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Bacia_do_rio_Doce. Acesso em: 2 maio 2026.


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FIM DO CAPÍTULO 3