📘 INTRODUÇÃO DO TOMO IV ECONOMIA, TRABALHO E SUSTENTABILIDADE
Capítulos 21 a 25
Depois de conhecermos a natureza que sustenta Mutum e Roseiral (Tomo I), a história de sua ocupação e formação (Tomo II) e a alma de seu povo manifesta na cultura, na fé e nas tradições (Tomo III), chegamos a um dos pilares mais concretos da vida coletiva: a economia, o trabalho e os desafios da sustentabilidade.
O Tomo IV não é um manual de administração ou um tratado de ciências econômicas. É, antes, um retrato das atividades que põem comida na mesa dos mutuenses, que geram emprego e renda, que movimentam o comércio local e que, também, impõem marcas profundas — nem sempre positivas — na paisagem e nos recursos naturais.
Começamos com a economia em sua totalidade (Capítulo 21), apresentando os três setores que estruturam a vida econômica do município: a agropecuária (café, pecuária leiteira e de corte, agricultura familiar), a silvicultura (eucalipto) e o setor de serviços, ainda incipiente, mas em crescimento. Aqui o leitor encontrará os números do rebanho bovino, a produção estimada de café (180 a 200 mil sacas por ano), a área ocupada pelo eucalipto e o papel da Coocafé como agente de modernização da cafeicultura.
Os impactos ambientais (Capítulo 22) são a contrapartida inevitável dessa economia. O desmatamento histórico, a erosão do solo, o assoreamento dos rios, a contaminação por agroquímicos (glifosato, 2,4D, Mancozeb), o esgoto doméstico lançado in natura nos cursos d'água, e o legado ainda presente do rompimento da barragem de Fundão (2015) são analisados com o rigor documental que a gravidade do tema exige. Não se trata de um capítulo pessimista, mas de um diagnóstico necessário. Como querer curar uma doença sem antes diagnosticá-la?
Os projetos ambientais (Capítulo 23) trazem a esperança. O Projeto Mutum, que reintroduziu o mutum-do-sudeste no Parque Estadual do Rio Doce após 50 anos de extinção local; o Programa Terra Doce, do Instituto Terra, que combina sistemas agroflorestais com geração de renda para pequenos produtores; o Reflorestar Doce, do Governo do Espírito Santo, com R$ 334 milhões investidos na restauração da Mata Atlântica; e o Acordo de Mariana, que destinou bilhões para a reparação dos danos causados pelo desastre de 2015. Esses projetos demonstram que é possível conciliar desenvolvimento econômico com conservação ambiental — desde que haja vontade política, investimento e engajamento comunitário.
O turismo e o potencial ecoturístico (Capítulo 24) abrem uma janela de oportunidade para um desenvolvimento mais sustentável. As cachoeiras de águas cristalinas, os monólitos de granito (Pedra Invejada, Pedra do Facão, Pedra do Gaspar), as piscinas naturais, as trilhas em meio à Mata Atlântica, e a proximidade com o Parque Estadual do Rio Doce (que recebeu mais de 50 mil visitantes em 2025) posicionam Mutum como um destino ecoturístico promissor. O roteiro da Rota Cicloturística Vales dos Tropeiros, a Festa do Bom Jesus em Roseiral e as charolas de São Sebastião são atrativos culturais que podem ser integrados a esse circuito.
Finalmente, o artesanato e a gastronomia (Capítulo 25) nos lembram que a economia também é feita de pequenos gestos, de saberes tradicionais, de receitas passadas de mãe para filha. O feijão tropeiro, herança direta dos antigos condutores de tropas; o doce de leite cremoso e em tablete; os queijos artesanais, produzidos com leite das fazendas locais (com destaque para a Fazenda Mutum, em Roseiral); a cachaça de alambique; as quitandas que povoam as mesas do café da manhã; e o artesanato em madeira, bordado e materiais reciclados, promovido pela Associação Mutuense de Artesãos (AMA). Esses produtos e saberes são, ao mesmo tempo, fonte de renda complementar para as famílias rurais e expressão da identidade cultural do território.
O Tomo IV não esconde os dilemas. A cafeicultura, tão importante para a economia local, é também uma das atividades que mais pressiona os recursos hídricos e o solo. O eucalipto, que gera empregos e divisas, avança sobre áreas que antes eram ocupadas por pastagens e lavouras de alimentos. O turismo, promissor, pode se tornar uma nova fonte de degradação se não for planejado com responsabilidade.
Mas o Tomo IV também aponta caminhos. Os sistemas agroflorestais (SAFs), o pagamento por serviços ambientais (PSA), a certificação de cafés especiais e de produtos orgânicos, o ecoturismo de base comunitária e as compras institucionais da agricultura familiar (PNAE, PAA) são estratégias concretas para um futuro mais sustentável.
Ao final da leitura destes capítulos, esperamos que o leitor tenha compreendido uma verdade simples, mas fundamental: não há desenvolvimento sem sustentabilidade, e não há sustentabilidade sem o engajamento da comunidade. A economia de Mutum e Roseiral não é um dado abstrato; são as mãos que plantam o café, que ordenham as vacas, que tecem a renda, que guiam o turista pela trilha da cachoeira. São essas mãos que construirão o futuro.
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Roseiral, distrito de Mutum — MG, 3 de maio de 2026.
Pedro Henrique Serrano Léllis
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