CAPÍTULO 21
ECONOMIA: CAFÉ, PECUÁRIA, AGRICULTURA FAMILIAR E O EUCALIPTO
1. PANORAMA GERAL
A economia de Mutum e do distrito de Roseiral estrutura-se fundamentalmente sobre o tripé cafeicultura, pecuária leiteira e silvicultura do eucalipto. A estas atividades somam-se a agricultura familiar, que ganhou fôlego institucional por meio da Associação da Agricultura Familiar de Humaitá (AAFH), e o setor de serviços, ainda incipiente, mas em crescimento.
O município está inserido na Zona da Mata mineira, região de tradição cafeeira centenária, e sua economia reflete a transição entre o modelo agroexportador do século XIX e as dinâmicas atuais de integração a cadeias produtivas globais — especialmente a celulose e o café especial.
O perfil fundiário de Mutum, conforme dados do Censo Agropecuário e do MapBiomas, revela a predominância da pastagem (62.428 km² de uso identificado), seguida pelo mosaico de agricultura e pastagem (29.383 km²), pela formação florestal nativa (25.326 km²) e pelas áreas de cafeicultura (1.347 km²) e silvicultura (662 km²) . Esses números, embora referentes a usos da terra e não diretamente a valores de produção, indicam a força da pecuária extensiva e o espaço ainda reduzido, porém estratégico, ocupado pelo café e pelo eucalipto.
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2. CAFEICULTURA: TRADIÇÃO, COOPERATIVISMO E QUALIDADE
2.1. O lugar do café na economia local
O café é a principal atividade agrícola do município em valor de produção e geração de emprego, com predominância de lavouras familiares e de médio porte. A região produz principalmente café arábica, cultivado nas encostas e áreas de altitude média, entre 400 e 900 metros — condições favoráveis à obtenção de bebida de qualidade superior.
De acordo com a classificação do MapBiomas para o município, a área ocupada pela cafeicultura em Mutum é de 1.347 km² (cerca de 134.700 hectares, considerando o beta test da base de dados). Esse número, embora passível de ajustes metodológicos, confirma a importância da cultura na matriz fundiária municipal, posicionando-a como uma das principais lavouras permanentes do Vale do Médio Rio Doce .
A produção responde não apenas ao mercado interno, mas também a nichos de cafés especiais, com valor agregado e potencial de exportação. A certificação de qualidade e a rastreabilidade têm sido incentivadas pelo cooperativismo local.
2.2. Cooperativas e infraestrutura: o caso da Coocafé
A presença da Coocafé (Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Manhuaçu Ltda.) em Mutum é emblemática da consolidação do cooperativismo local. A cooperativa inaugurou sua unidade comercial no distrito de Imbiruçu em setembro de 2022, após quase duas décadas de operação de uma estrutura menor na região.
A duplicidade — duas unidades da Coocafé em um mesmo município (Mutum e Imbiruçu) — atesta não apenas a capilaridade da cooperativa, mas também a relevância da cafeicultura mutuense no contexto regional da Zona da Mata mineira. A filial Imbiruçu emite notas fiscais localmente, gerando impostos, empregos e renda para a comunidade, além de oferecer assistência técnica e insumos para os cafeicultores.
O cooperativismo tem sido fundamental para a modernização da cafeicultura, permitindo o acesso a mercados mais exigentes, a tecnologias de pós-colheita (secadores, classificadores eletrônicos) e a linhas de crédito específicas.
2.3. Vulnerabilidades climáticas
A cafeicultura local é extremamente sensível a intempéries. Registros de quebra de safra associados à falta de chuvas e ao aumento do percentual de grãos verdes são recorrentes. A região produz, em média, de 180 a 200 mil sacas do produto, e quase nada foi colhido ainda. Ele diz que espera-se uma quebra de 20% na safra.
Fonte: Canal Rural — Safra de café tem quebra de 20% em Mutum (MG) (30 maio 2016)
Se confirmada a persistência dessa média produtiva, a safra anual do município situar-se-ia entre 180.000 e 200.000 sacas, volume expressivo para a economia local e para a arrecadação municipal.
As mudanças climáticas representam o principal vetor de risco para a cafeicultura mutuense. O aumento da temperatura média, a irregularidade das chuvas e a maior frequência de veranicos (períodos de estiagem no meio da estação chuvosa) afetam a floração, a granação e a maturação dos frutos, reduzindo a produtividade e a qualidade da bebida.
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3. PECUÁRIA LEITEIRA E DE CORTE: A FORÇA DA FAZENDA MUTUM
3.1. O rebanho bovino em números
A pecuária é a segunda atividade econômica do município, superada apenas pela cafeicultura. O rebanho bovino de Mutum foi estimado, em dados consolidados de anos anteriores, em cerca de 72.792 cabeças, distribuídas entre as categorias de corte (29.010 cabeças), leite (7.431 cabeças) e outras (36.351 cabeças). A pecuária de corte predomina numericamente, mas a produção leiteira é a que mais agrega valor e gera emprego direto, especialmente no distrito de Roseiral.
O predomínio da pastagem como uso da terra (62.428 km²) confirma a importância da pecuária extensiva na ocupação do solo e na dinâmica econômica municipal, ainda que a produtividade por hectare seja comparativamente baixa.
3.2. A Fazenda Mutum – referência em genética Gir Leiteiro
No âmbito da produção leiteira, destaca-se a Fazenda Mutum, propriedade situada em Roseiral. Fundada em 1970, iniciou suas atividades com aproximadamente 70 cabeças de gado leiteiro, compostas por vacas cruzadas e matrizes da raça Gir Leiteiro, base para a formação do Girolando.
A história da Fazenda Mutum começa no ano de 1970, quando foi adquirida e iniciou suas atividades com gado leiteiro, com vacas cruzadas, mais ou menos 70 cabeças de Gir Leiteiro que serviam de base para fazer o Girolando.
Fonte: Fazenda Mutum — Sobre nós
Em menos de cinco décadas, a propriedade consolidou-se como referência nacional na genética do Gir Leiteiro, alcançando índices produtivos expressivos. Em 2016, a produção leiteira da fazenda Mutum fechou com 8.500 litros/dia. Para 2017, a previsão era de 11 mil litros.
A Fazenda Mutum participa regularmente de exposições e leilões nacionais, tendo se tornado um dos maiores criatórios da raça Gir Leiteiro no Brasil. Sua produção abastece laticínios da região e contribui para a formação de rebanhos em outros municípios do Vale do Rio Doce e do Espírito Santo.
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4. AGRICULTURA FAMILIAR: ASSOCIAÇÃO DE HUMAITÁ (AAFH) E AUTOCONSUMO
4.1. Formação e estrutura institucional
A Associação da Agricultura Familiar de Humaitá (AAFH) é a principal organização representativa da agricultura familiar no município, com sede no distrito de Humaitá. Foi fundada em 27 de novembro de 2000, tendo completado, em 2025, 25 anos de existência.
A AAFH recebeu, em 2022, um trator por meio de emenda parlamentar, recurso destinado à estruturação da associação e ao atendimento às necessidades do distrito. O objeto era a aquisição para o fornecimento de trator e equipamentos agrícolas para à Associação de Agricultura Familiar de Humaitá em atendimento ao Distrito e às necessidades.
A associação também atua na área de apicultura (CNAE A-0159) como uma de suas atividades complementares, buscando diversificar a produção e gerar renda alternativa para os agricultores associados.
Embora sediada em Humaitá, o escopo da AAFH abrange diferentes localidades rurais do município, incluindo Roseiral. A capilaridade da agricultura familiar no distrito — com pequenas propriedades voltadas ao café, à pecuária leiteira e ao autoconsumo — inscreve-se nesse ecossistema associativo.
4.2. Produção para autoconsumo e segurança alimentar
Além das culturas comerciais (café, leite, eucalipto), a agricultura familiar de Roseiral mantém a produção de alimentos para autoconsumo: milho, feijão, mandioca, hortaliças, frutas (laranja, banana, goiaba, manga) e pequenos animais (galinhas, porcos). Essa produção é essencial para a segurança alimentar das famílias rurais e reduz a dependência de alimentos industrializados, nem sempre acessíveis aos pequenos produtores.
A produção de excedentes — em especial de queijos, doces, cachaça e compotas — é comercializada em feiras livres (Mutum e cidades vizinhas) e por meio de vendas diretas aos consumidores (delivery, redes sociais). A AAFH atua como canal de articulação para a comercialização desses excedentes, ainda que de forma incipiente.
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5. EUCALIPTO: EXPANSÃO, IMPACTOS E CONTROVÉRSIAS
5.1. O avanço da silvicultura comercial no Vale do Rio Doce
O eucalipto, embora com área plantada relativamente pequena em Mutum (662 km²) , é uma atividade em expansão na região do Vale do Médio Rio Doce, impulsionada pela demanda das indústrias de celulose, siderurgia (carvão vegetal) e madeira tratada.
A região sul do Vale do Rio Doce — onde se situa Mutum — insere-se no corredor de influência das grandes empresas do setor, notadamente a Cenibra S.A. (Celulose Nipo-Brasileira), com sede em Belo Oriente (MG), e a Vale S.A., que atua na produção de carvão vegetal para abastecer suas plantas de pelotização.
Em outras regiões do Brasil, a expansão da monocultura do eucalipto tem gerado impactos socioambientais significativos, como o deslocamento da agricultura familiar, a degradação de nascentes, o assoreamento de rios e o aumento de atropelamentos de fauna silvestre em rodovias . Esses impactos, embora em escala reduzida, também podem ser observados em Mutum e Roseiral, especialmente nas áreas de maior concentração de plantios.
O impacto sobre os recursos hídricos merece atenção especial: o eucalipto, dependendo do manejo adotado (plantio em nível, manutenção de resíduos orgânicos, faixas de proteção de nascentes), pode ter sua pegada hídrica minimizada. No entanto, o desmatamento das matas nativas para dar lugar aos eucaliptais — prática ainda recorrente — compromete a recarga dos aquíferos, a vazão dos rios e a qualidade da água. Em Mutum, a discussão sobre os impactos do eucalipto ainda é incipiente, mas tende a se intensificar à medida que a silvicultura avança sobre áreas antes ocupadas por pastagens e lavouras.
5.2. A silvicultura como alternativa de renda para pequenos e médios proprietários
Para muitos proprietários rurais de Mutum, o plantio de eucalipto representa uma alternativa de renda de médio prazo (corte a cada 6-7 anos), com menor demanda de mão de obra que a cafeicultura e a pecuária leiteira. Contratos de fornecimento com empresas do setor garantem preços mínimos e escoamento da produção, reduzindo os riscos de mercado.
No entanto, a tendência à concentração de terras (pequenos proprietários arrendam ou vendem suas terras para grandes produtores de eucalipto) e a redução da diversidade produtiva (substituição de lavouras de alimentos por florestas) são apontadas como efeitos colaterais indesejados da expansão da silvicultura. Em Mutum, o avanço do eucalipto ainda não atingiu o patamar de outras regiões do estado, mas é uma tendência a ser monitorada.
5.3. Sustentabilidade e certificação
A silvicultura de eucalipto, quando manejada de acordo com os padrões do Forest Stewardship Council (FSC) ou do Programa Brasileiro de Florestas Certificadas (CERFLOR), pode ser ambientalmente sustentável, mantendo áreas de preservação permanente (APPs), corredores ecológicos e respeitando o código florestal.
A Cenibra, principal empresa do setor na região, mantém a RPPN Fazenda Macedônia, em Ipaba (MG), e desenvolve o Projeto Mutum, de reintrodução do mutum-do-sudeste no Parque Estadual do Rio Doce . Essas iniciativas indicam que a coexistência entre silvicultura em larga escala e conservação da biodiversidade é possível, desde que haja planejamento, fiscalização e engajamento das comunidades locais.
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6. MINERAÇÃO E EXTRAÇÃO VEGETAL
A extração de granito e outras rochas ornamentais também ocorre no território de Mutum, ainda que em escala reduzida. A rodovia MG-108 é corredor de transporte de pedras de granito oriundas do Espírito Santo e de áreas vizinhas, com destino a serrarias e mercados consumidores.
Quanto à extração vegetal, a produção de carvão vegetal a partir de florestas plantadas de eucalipto é uma atividade complementar para alguns produtores rurais, abastecendo siderúrgicas da região e o mercado de churrasco.
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7. QUADRO‑SÍNTESE DA ECONOMIA DE MUTUM (2026)
Setor / Atividade Características principais Peso na economia local
Cafeicultura Cultivo de café arábica; cooperativismo (Coocafé); produção estimada de 180-200 mil sacas/ano Principal atividade em valor de produção
Pecuária leiteira Fazenda Mutum (Roseiral) como referência em genética Gir Leiteiro; produção de 8.500-11.000 litros/dia Segunda principal atividade geradora de emprego
Pecuária de corte Rebanho estimado em ~29.000 cabeças; predomínio de pastagem extensiva Modesto (produtividade por hectare baixa)
Eucalipto Área plantada: 662 km²; abastece indústria de celulose (Cenibra) e siderurgia (carvão) Em expansão; divisas
Agricultura familiar Associativismo (AAFH); produção para autoconsumo e excedentes (queijos, doces, cachaça) Fundamental para segurança alimentar e fixação no campo
Mineração / extração vegetal Granito, carvão vegetal Modesto
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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 21
CANAL RURAL. Safra de café tem quebra de 20% em Mutum (MG). 30 maio 2016. canalrural.com.br
CONEXÃO SAFRA. Coocafé inaugura nova unidade comercial em Mutum (MG). set. 2022. conexaosafra.com
FAZENDA MUTUM. Sobre nós — Nossa história. girleiteiromutum.com.br
IPEA — MAPA DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL. Associação da Agricultura Familiar de Humaitá. mapaosc.ipea.gov.br
INFOSANBAS. Mutum – MG – Dados do Município – Uso da Terra (MapBiomas). infosanbas.org.br/municipio/mutum-mg/
CENIBRA. Relatório de Sustentabilidade RPPN Fazenda Macedônia. cenibra.com.br
AGÊNCIA MINAS. Mutum-do-bico-vermelho volta a habitar a Mata Atlântica após 50 anos de extinção em parque mineiro. 19 mai. 2025. agenciaminas.mg.gov.br
PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. Lei nº 943/2017 — Código Ambiental do Município de Mutum (proteção de nascentes e APPs). mutum.mg.gov.br
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FIM DO CAPÍTULO 21



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