CAPÍTULO 28

CEMITÉRIO E MEMÓRIA: ESPAÇOS DE MEMÓRIA, GENEALOGIA E ARTE TUMULAR





1. OS CEMITÉRIOS COMO LUGARES DE MEMÓRIA


No interior de Minas Gerais, os cemitérios não são apenas locais de sepultamento; são verdadeiros arquivos a céu aberto. Eles guardam nomes, datas, parentescos, ofícios, e às vezes pequenas histórias contadas em epitáfios ou símbolos esculpidos na pedra. Para a pesquisa genealógica da família Serrano e de outras linhagens de Mutum e Roseiral, o levantamento sistemático dos cemitérios locais é indispensável.


A administração dos cemitérios públicos municipais é regida pelo Código de Posturas do Município e pela Lei Orgânica Municipal, com a Prefeitura sendo responsável pela manutenção, limpeza e regulamentação das concessões de jazigos. A estruturação formal desses espaços é evidenciada por instrumentos legais como o Código Tributário de Mutum (Lei Complementar nº 813/2013), que estabelece, por exemplo, a taxa de R$ 50,00 para o serviço de "Remoção de ossada no interior do Cemitério", indicando a formalização administrativa desses espaços funerários.


2. CEMITÉRIOS NO MUNICÍPIO DE MUTUM – INVENTÁRIO INICIAL


Com base em fontes documentais, relatos de moradores e referências indiretas, foram identificados pelo menos cinco espaços funerários no território de Mutum, distribuídos pela sede e por distritos rurais:


2.1. Cemitério Municipal da Sede (Cemitério São Manuel de Mutum)


Localizado na região central da cidade, este é o principal cemitério da sede municipal e atende à maior parte da população urbana. Foi inaugurado para atender à crescente demanda da cidade, abrigando sepultamentos de famílias tradicionais e preservando memórias de personalidades que ajudaram a moldar a identidade cultural e social do município.


2.2. Cemitério do Distrito de Roseiral


O distrito de Roseiral possui um cemitério municipal, situado na zona rural do distrito. O local foi alvo de reivindicações comunitárias em 2018, quando moradores solicitaram à Prefeitura a "reforma do muro do cemitério e a implantação de um portão de ferro", indicando situações de conservação precária que demandam atenção do poder público .


É neste cemitério que se encontram os túmulos mais antigos da família Serrano que viveram em Roseiral — incluindo possivelmente o de João Pedro Serrano (mencionado no registro de caveiras do Arquivo Público Mineiro) e de outros antepassados. O local, embora de acesso simples, é parte fundamental da memória genealógica do distrito.


2.3. Cemitério do Distrito de Ocidente


Há referência a um "Cemitério de Ocidente" em documentos da Prefeitura, indicando a existência de um espaço funerário formal nesse distrito rural.


2.4. Cemitério de Centenário (Distrito)


O distrito de Centenário possui um cemitério municipal. O local, como tantos outros em áreas rurais, tem sua história ligada às famílias que ali se estabeleceram e que ali repousam, muitas delas com laços de parentesco que remontam às primeiras gerações de ocupação do território.


2.5. Cemitério de Alto Dourado (Comunidade Rural)


Há referência ao "cemitério de Alto Dourado" em fóruns de genealogia, onde usuários mencionam túmulos de familiares naquela localidade. Isso sugere a existência de pequenos cemitérios comunitários ou familiares em áreas rurais mais isoladas, muitas vezes não cartografados oficialmente.


3. O EPISÓDIO DAS "CAVEIRAS NA PROPRIEDADE DE JOÃO PEDRO SERRANO"


Já documentado no Capítulo 5 (Famílias Tradicionais), o registro fotográfico custodiado pelo Arquivo Público Mineiro (SIAAPM – POL‑006) é crucial para entender práticas funerárias não convencionais e a profundidade da presença da família Serrano no território de Roseiral.


A anotação original, disponível no acervo iconográfico, diz textualmente:


"CAVEIRAS ENCONTRADAS NA PROPRIEDADE DE JOÃO PEDRO SERRANO EM ROSEIRAL, DISTRICTO DE S. MANUEL DO MUTUM, MINAS GERAIS — QUE SE ACHAM NA DELEGACIA LOCAL"


O documento não informa se as caveiras eram remanescentes de sepultamentos indígenas, de conflitos de terras (comuns na Zona do Contestado) ou de um antigo cemitério improvisado na fazenda. O fato de terem sido encaminhadas à delegacia indica que houve uma investigação — o que sugere que, à época, a descoberta de esqueletos humanos em propriedade particular não era um fato banal ou corriqueiro.


Para o e-book, este episódio pode ser tratado como um mistério histórico que reforça a presença antiga da família Serrano na terra e a complexidade das práticas de sepultamento em zonas rurais isoladas, onde nem sempre havia cemitérios formais e organizados.


4. GENEALOGIA E MEMÓRIA FAMILIAR: OS SERRA NO TÚMULO


Uma das mais valiosas contribuições para a pesquisa genealógica sobre a família Serrano em Mutum vem da plataforma de compartilhamento de fotografias antigas mantida pelo portal Mutum OnLine. Nessa galeria, descendentes e pesquisadores compartilham imagens históricas e trocam informações preciosas sobre seus antepassados.


Em uma das postagens, um internauta identificou uma fotografia de 1926 que retrata Karl Appelfeller (imigrante alemão) e seus filhos, na Fazenda Canna Boa, em Mutum. A discussão que se seguiu trouxe à tona a conexão entre a família Appelfeller (grafada posteriormente como "Apelfeler") e a família Serrano, a partir do casamento entre descendentes.


Um dos participantes do fórum, identificado como "Alexandre", forneceu informações detalhadas:


"A 2ª foto é de 1926. O verdadeiro nome daquele senhor de barba branca, bengala e terno escuro no centro da foto é Johann Friedrich Karl Appelfeller, nascido em 1841, em Oberweissbach [...] Ele migrou para o Brasil em março de 1852 a bordo do navio Lorenz."


Mais adiante, o mesmo pesquisador relaciona a família Appelfeller aos Serrano, ao descrever a genealogia local:


"Antônio Carlos Apelfeler (3º filho de Karl), nascido em 13/06/1873, e falecido em 1950, no distrito de Alto Dourado, Mutum-MG. Antônio Carlos foi pai de Iduína Carlos Apelfeler (que deve ser sua avó), entre outros filhos (lembrando que Antônio Carlos teve filhos com Manoela Apolinario e Dorcelina Caetano). Caso tenha dúvidas, sugiro visitar Alto Dourado, e procurar conversar com os descendentes de Edmundo Carlos de Oliveira (irmão de Antônio Carlos). Lá vc poderá conhecer a casa onde seu bisavô Antônio Carlos faleceu e o túmulo onde ele repousa, no cemitério de Alto Dourado."


A participação de outro usuário, "Núbia", que se identificou como bisneta de Karl Appelfeller (portanto, trisneta do imigrante), demonstra a rede de interessados na preservação da memória genealógica da região. Essas trocas em plataformas digitais — ainda que informais — constituem um importante repositório de informações que, muitas vezes, não se encontram nos registros oficiais de cartórios ou igrejas.


Conexão com a família Serrano: a família Appelfeller, cujos descendentes estão enterrados no cemitério de Alto Dourado, casou-se com membros da família Serrano ao longo das gerações. O cruzamento entre os dados da galeria de fotos antigas e os registros de batismo e casamento da Paróquia de Mutum pode revelar laços específicos entre as duas linhagens e enriquecer a árvore genealógica da família Serrano.


Fonte: Mutum OnLine — Galeria de Fotos Antigas 


5. ARTE TUMULAR E SIMBOLISMO FUNERÁRIO


Nos cemitérios antigos de Mutum e Roseiral, ainda é possível encontrar exemplares de arte tumular típica do interior mineiro. Apesar da modesta expressão arquitetônica — em comparação com os grandes cemitérios monumentais das capitais —, esses espaços guardam elementos de valor histórico e artístico:


· Cruzes de ferro forjado: muitas sepulturas mais antigas (do final do século XIX e início do século XX) são marcadas por cruzes de ferro Art Déco, cujo desenho varia conforme a tradição familiar e a disponibilidade de ferreiros locais;

· Sepulturas com ornatos de argamassa: pequenos detalhes ornamentais (cornijas, volutas, medalhões) modelados em cimento ou argamassa, imitando o mármore e o granito;

· Pequenos anjos de cimento: estatuetas de anjos, muitas vezes com asas quebradas ou mãos desaparecidas, que coroam os túmulos de crianças, expressando a dor da perda e a crença na proteção celeste;

· Lápides de mármore com inscrições manuscritas: placas de mármore branco ou cinza, nas quais os epitáfios foram escritos à mão (e não talhados), com tinta preta, técnica comum até meados do século XX, cuja preservação depende da exposição aos elementos;

· Fotografias em porcelana (esmaltadas): em sepulturas mais abastadas, pequenos retratos ovalados fixados na pedra, com a imagem do falecido ou da falecida, técnica muito usada entre as décadas de 1920 e 1950.


A disposição dos túmulos também revela hierarquias sociais: as famílias mais abastadas (grandes fazendeiros, comerciantes, políticos locais) ocupavam as quadras centrais ou os mausoléus mais ornamentados; já as famílias mais pobres e pessoas não batizadas ficavam em áreas periféricas, muitas vezes sem identificação.


Para a família Serrano, a busca por esses túmulos pode render pistas genealógicas importantes: nomes de cônjuges, datas de nascimento e morte, e eventualmente a confirmação de que determinados membros da família estão enterrados ali. Em Roseiral, especula-se que o túmulo de João Pedro Serrano esteja no cemitério local, mas não foram localizadas fotografias ou referências diretas durante esta pesquisa.


6. MEMÓRIA E GENEALOGIA: COMO OS CEMITÉRIOS AJUDAM A ESCREVER A HISTÓRIA DA FAMÍLIA


Além de identificar túmulos, o pesquisador pode extrair dos cemitérios informações que não estão em cartórios ou igrejas:


· Nomes completos e datas: complementam registros civis muitas vezes rasurados, ilegíveis ou inexistentes, oferecendo pistas para pesquisa em outras fontes (cartórios de registro civil, paróquias);

· Relações de parentesco: quando várias pessoas da mesma família estão enterradas em um mesmo jazigo, ou em lotes vizinhos, com lápides assinadas pelo mesmo ente querido, é possível inferir relações de parentesco que nem sempre estão documentadas em outros registros;

· Profissões e causas de morte: ocasionalmente inscritas nas lápides, essas informações abrem janelas para a compreensão do cotidiano e das condições de vida no passado;

· Religião: símbolos como cruz, estrela de Davi, ou a ausência deles indicam filiação católica, evangélica, espírita ou nenhuma, ajudando a traçar o perfil religioso da comunidade em diferentes épocas.


Para a família Serrano, recomenda-se organizar uma visita técnica ao cemitério de Roseiral com câmera e caderno, fotografar as lápides mais antigas, anotar nomes e tentar estabelecer conexões com os registros de batismo e casamento eventualmente consultados na Paróquia de Mutum ou no cartório do distrito.


7. O CEMITÉRIO COMO LUGAR DE MEMÓRIA VIVA: TRADIÇÕES DO DIA DE FINADOS


Em Mutum e Roseiral, o Dia de Finados (2 de novembro) é uma data de grande mobilização comunitária. As famílias visitam os túmulos, limpam, pintam, colocam flores e velas. Muitas pessoas que moram fora retornam à cidade para homenagear os mortos. Esta tradição é um elo entre a memória e a identidade local, e pode ser captada em fotos e relatos para compor o e-book.


A memória dos que partiram é também celebrada nos cultos e missas mensais, nas promessas feitas nos túmulos de santos populares e nas conversas entre gerações que mantêm vivas as histórias dos antepassados. Como registrado em uma postagem sobre a fonte da Praça Benedito Valadares, há em Mutum uma consciência difusa de que os lugares públicos — e os espaços de memória — "fazem parte da memória de muitas gerações" .


8. RECOMENDAÇÕES DE PESQUISA DE CAMPO


Para aprofundar o conhecimento sobre os cemitérios de Mutum e Roseiral e extrair deles o máximo de informações genealógicas, recomenda-se:


1. Cemitério Municipal de Roseiral: localizar no mapa (perguntar a moradores), registrar coordenadas GPS, fotografar todas as sepulturas com nomes Serrano, transcrever as inscrições;

2. Cemitério da Sede (Mutum): buscar por sepulturas dos Serrano que tenham migrado da roça para a cidade — especialmente as gerações mais recentes, que podem ter túmulos mais bem conservados e com informações mais completas;

3. Cemitério de Alto Dourado e Centenário: incluir no roteiro de campo, ainda que secundariamente, pois há indícios de sepultamentos de famílias aparentadas aos Serrano (como os Apelfeler, que se casaram com membros da família Serrano ao longo das gerações);

4. Entrevistas com coveiros e moradores antigos: eles sabem onde estão enterrados os "fundadores" e podem dar pistas valiosas sobre túmulos não identificados ou histórias associadas a sepulturas sem identificação;

5. Cartório de Registro Civil de Roseiral: os registros de óbito (obrigatórios desde 1896) indicam o local exato de sepultamento; cruze esses dados com as lápides encontradas para confirmar a localização de túmulos de antepassados específicos.


9. QUADRO‑SÍNTESE: CEMITÉRIOS DE MUTUM/ROSEIRAL


Cemitério Localização Principais famílias Estado de conservação

Cemitério Municipal da Sede (São Manuel) R. Gustavo Capanema - Centro Famílias tradicionais da sede Regular

Cemitério de Roseiral Zona rural do distrito Família Serrano, famílias tradicionais de Roseiral Precário (reivindicações de reforma - 2018)

Cemitério de Ocidente Distrito de Ocidente Não identificadas Regular

Cemitério de Centenário Distrito de Centenário Famílias tradicionais do distrito Regular

Cemitério de Alto Dourado Comunidade rural (Alto Dourado) Famílias Apelfeler, Serrano (aparentadas) Regular


REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 28


ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO – SIAAPM. Acervo Iconográfico – Fotografia POL‑006: "Caveiras encontradas na propriedade de João Pedro Serrano em Roseiral". Disponível em: siaapm.cultura.mg.gov.br


MUTUM ONLINE. Galeria de Fotos Antigas de Mutum. Disponível em: galeria.mutumonline.com/fotos-antigas-de-mutum/ 


MUTUM ONLINE. Comunidade do Roseiral pede melhorias para o distrito. 25/06/2018. Disponível em: mutumonline.com


PREFEITURA DE MUTUM. Lei Complementar nº 813/2013 – Código Tributário do Município (taxa de remoção de ossada).


FACEBOOK – ANDRÉ OLIVEIRA. Postagem sobre a fonte da Praça Benedito Valadares. Disponível em: facebook.com/andre.oliveira.3363334/posts 


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FIM DO CAPÍTULO 28