CAPÍTULO 29


ARQUITETURA: CASARÕES ANTIGOS, CASAS DE FAZENDA E CONSTRUÇÕES COLONIAIS




1. PANORAMA GERAL


A arquitetura de Mutum e do distrito de Roseiral constitui um testemunho material do processo de ocupação do Vale do Médio Rio Doce. Diferentemente das cidades coloniais do Ciclo do Ouro — cujo apogeu arquitetônico se deu nos séculos XVII e XVIII —, Mutum teve sua urbanização consolidada tardiamente, a partir do final do século XIX e início do século XX, com a chegada das frentes pioneiras, dos tropeiros e da expansão da cafeicultura.


A arquitetura vernacular local, portanto, não se inscreve no chamado barroco mineiro (Ouro Preto, Mariana, Congonhas), mas sim nas tipologias rural-eclesiásticas e civis do período cafeeiro, com forte influência das técnicas construtivas luso-brasileiras adaptadas aos materiais disponíveis — taipa, pau-a-pique, adobe, madeira de lei, telha-canal e, posteriormente, alvenaria de tijolos.


Por fatores econômicos e de localização, a ocupação da região do Vale do Rio Doce foi relativamente recente, e a maioria de seus municípios é jovem, tendo sido emancipada em meados do século XX. Em Mutum, a arquitetura colonial pura é escassa ou inexistente, predominando o acervo do século XIX tardio até meados do século XX.


O acervo arquitetônico mutuense é composto por: construções religiosas (Igreja Matriz de São Manoel na sede, Capela de Nossa Senhora do Rosário em Ponte Alta, tombada municipalmente, e Igreja do Bom Jesus em Roseiral); casas de fazenda e sedes rurais remanescentes do ciclo cafeeiro; casarões urbanos do centro histórico, construídos entre as décadas de 1920 e 1950, com fachadas características do ecletismo e da arquitetura moderna vernacular; e antigos edifícios públicos, como a primeira escola “Edifício Escolar” (1923) e a Câmara Municipal.


2. A ARQUITETURA RURAL DAS FAZENDAS DE CAFÉ


O ciclo cafeeiro, que impulsionou o desenvolvimento de Mutum no final do século XIX e início do século XX, deixou como legado um conjunto de construções rurais que ainda merece inventário sistemático pelas instâncias de preservação cultural. As casas-sede e os edifícios das fazendas de café dessa região demarcavam fortemente a paisagem e eram dotados de tecnologia tradicional, sendo considerados de suma importância para a compreensão do modo de vida da elite cafeeira e das relações de trabalho no campo durante a Primeira República.


As técnicas construtivas empregadas nessas fazendas incluem:


· Paredes de pau-a-pique e adobe: especialmente nos cômodos menos nobres e nas construções auxiliares (senzalas, tulhas, paióis);

· Alvenaria de tijolos maciços: nas casas-sede mais abastadas, rebocadas e caiadas;

· Telhado de telha-canal sobre estrutura de madeiramento: com beirais largos para proteção contra as intempéries;

· Janelas e portas de madeira maciça: com bandeiras superiores em treliça para ventilação;

· Pisos de tijolos (ladrilho hidráulico), cimento queimado ou tábuas largas (assoalhado em madeira de lei).


O acervo remanescente das fazendas de café da Zona da Mata, infelizmente, vem sofrendo processo de degradação. As casas simples, de portas e janelas de madeira, com vergas retas, muitas vezes são demolidas para dar lugar a edificações que representam o enriquecimento do lugar e de seus habitantes — um fenômeno observável em várias localidades do interior mineiro, incluindo possivelmente o distrito de Roseiral.


Para a identificação dessas construções, recomenda-se a pesquisa em documentos notariais sob a guarda do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Mutum (Rua Antônio Carlos, nº 76, Centro), onde se encontram escrituras, testamentos e inventários que mencionam as antigas fazendas e seus construtores.


3. CASARÕES DO CENTRO HISTÓRICO


Nos centros urbanos de Mutum, os casarões construídos entre as décadas de 1920 e 1950 refletem uma transição entre as técnicas vernaculares e a incorporação dos materiais industrializados. Tais edificações geralmente apresentam:


· Fachadas simétricas, com janelas alinhadas em verga reta ou arco abatido.

· Portas centrais em madeira, ladeadas por duas janelas (salas da frente).

· Beirais com cachorros de madeira talhada (nos exemplares mais antigos e bem conservados).

· Pé direito alto (acima de 4 metros), garantindo conforto térmico.

· Forro de madeira (taco, saia-e-camisa) nos cômodos principais.


Esses casarões foram construídos, em grande parte, por famílias de comerciantes, pequenos industriais e profissionais liberais (farmacêuticos, médicos, advogados) que se estabeleceram em Mutum após a emancipação política. Suas fachadas, ainda que modestas em relação aos palacetes das capitais, expressam o desejo de modernidade e status social de seus proprietários.


Na Praça Benedito Valadares, centro nevrálgico da cidade, estão alguns dos exemplares mais significativos dessa arquitetura urbana. A sede da Prefeitura Municipal (antigo prédio da Câmara, inaugurado em 1925) e a Casa do Pharmacêutico Nicolau são marcos visíveis dessa paisagem construída, ainda que nenhum deles seja objeto de tombamento formal pelo IEPHA-MG.


4. CONSTRUÇÕES RELIGIOSAS: CAPELA NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E IGREJA DO BOM JESUS


Capela Nossa Senhora do Rosário (Ponte Alta) : localizada no Córrego da Ponte Alta, foi tombada pela Prefeitura Municipal de Mutum-MG por sua importância cultural para a cidade. O tombamento sujeita a capela às diretrizes de proteção estabelecidas pela Lei n° 255/2000, não podendo ser descaracterizada. A capela segue o padrão das igrejas rurais mineiras do século XIX: nave única, torre sineira adossada à fachada principal, altares laterais de madeira, piso original de tijolos e pintura interna em cores suaves.


Igreja do Bom Jesus (Roseiral) : situada no centro do distrito, ao lado da quadra poliesportiva, é o principal templo católico de Roseiral. Construída provavelmente nas primeiras décadas do século XX, acompanha o padrão das igrejas rurais mineiras da época, com nave única, paredes caiadas de branco, telhado de duas águas e forro de madeira na capela-mor. A igreja passou por intervenções de manutenção ao longo das décadas, mas conserva suas linhas originais, sendo um marco na paisagem urbana do distrito e o centro da vida comunitária local.


5. AS CASAS DE FAZENDA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL RURAL


O patrimônio cultural rural — frequentemente negligenciado pelas políticas oficiais de preservação — adquire no contexto de Mutum e Roseiral importância estratégica, pois constitui o último registro material de um modo de vida que se extinguiu progressivamente com o êxodo rural e a mecanização da agricultura.


As casas de fazenda, outrora centros nervosos de unidades produtivas autossuficientes, articulavam em torno de si:


· A sede (residência do proprietário e sua família);

· A senzala ou a casa dos colonos (moradia dos trabalhadores);

· A tulha (depósito de cereais e café);

· O terreiro (secagem do café);

· As estrebaria e currais (abrigo dos animais);

· A capela (quando existente);

· O cemitério familiar (em propriedades mais antigas).


Esse conjunto, quando ainda preservado, configura um microcosmo da sociedade rural patriarcal do Vale do Rio Doce. Recomenda-se, portanto:


1. Inventário participativo das casas de fazenda e casarões antigos ainda existentes nos distritos de Ocidente, Humaitá e Roseiral.

2. Registro fotográfico e iconográfico das edificações e de seus interiores (mobiliário, utensílios, objetos de uso cotidiano).

3. Entrevistas com moradores antigos sobre a história de cada edificação e as transformações por que passaram.

4. Georreferenciamento das construções para composição de mapa temático do patrimônio arquitetônico mutuense.


6. O DESAFIO DA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO


A preservação do patrimônio arquitetônico em Mutum e Roseiral enfrenta desafios similares aos de grande parte dos municípios brasileiros de pequeno porte:


· Falta de instrumentos legais efetivos: embora existam leis de proteção (como a Lei n° 255/2000, que dispõe sobre o tombamento municipal), a fiscalização e as sanções para descumprimento são frágeis ou inexistentes na prática.

· Pressão do mercado imobiliário: casarões antigos, muitas vezes em áreas centrais valorizadas, são frequentemente demolidos para dar lugar a edificações modernas, com perda irreparável da memória arquitetônica.

· Custo elevado de restauração: a manutenção de uma edificação histórica (telhado, forro, madeiramento, revestimentos) exige investimentos que a maioria dos proprietários não pode arcar.

· Desconhecimento do valor patrimonial: muitas famílias não têm consciência do significado histórico e cultural dos imóveis que herdaram, optando por substituí-los por construções padronizadas em alvenaria de concreto.


A região do Vale do Rio Doce, por fatores econômicos e de localização, teve uma ocupação relativamente recente. A maioria de seus municípios é bem jovem, tendo sido emancipada em meados do século XX. Os incentivos fiscais do ICMS Patrimônio Cultural, instituídos em Minas Gerais, podem ser uma alavanca para Mutum desenvolver políticas de preservação e obter recursos financeiros para restaurar seu acervo histórico ainda existente.


A criação de um Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, nos termos da legislação federal (Decreto-Lei nº 25/1937) e estadual, seria o primeiro passo para:


1. Inventariar e identificar os bens de valor histórico e arquitetônico do município;

2. Propor o tombamento municipal dos mais representativos (casas de fazenda, igrejas, casarões antigos);

3. Monitorar as intervenções e emitir pareceres sobre demolições e reformas;

4. Habilitar o município ao recebimento de recursos do ICMS Patrimônio Cultural.


7. QUADRO‑SÍNTESE: PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO DE MUTUM/ROSEIRAL


Categoria Exemplares identificados Estado de conservação Tombamento / Proteção

Capelas e igrejas Capela Nossa Senhora do Rosário (Ponte Alta) Regular Tombada pelo município (Lei n° 255/2000)

Capelas e igrejas Igreja do Bom Jesus (Roseiral) Bom Sem tombamento

Igreja matriz Igreja Matriz de São Manoel (sede) Bom Sem tombamento

Casas de fazenda (rural) Fazenda Mutum (Roseiral) Regular Em pé, sem tombamento

Casas de fazenda (rural) Propriedades dos distritos de Ocidente, Humaitá e Centenário Variável Sem inventário sistemático

Casarões urbanos Construções da Praça Benedito Valadares, Rua Dom Cavati e adjacências Variável Sem tombamento

Edifícios públicos históricos Antiga Câmara Municipal (atual Prefeitura) Bom Sem tombamento

Cemitérios Cemitérios municipais da sede e distritos Regular Públicos, administrados pela Prefeitura


REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 29


IPATRIMÔNIO. Mutum – Capela Nossa Senhora do Rosário. Tombada pela Prefeitura Municipal de Mutum-MG. Disponível em: ipatrimonio.org


PREFEITURA DE MUTUM. Decreto de Tombamento da Capela Nossa Senhora do Rosário. Com sujeição às diretrizes da Lei n° 255/2000.


IBGE – DOCUMENTAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL: MUTUM (MG) . Código do município: 3144003. Disponível em: biblioteca.ibge.gov.br


MUTUM ONLINE. História de Mutum – Urbanização e prédios históricos. Disponível em: mutumonline.com/site/historia


CARTÓRIO DE REGISTRO DE IMÓVEIS DA COMARCA DE MUTUM. Endereço: Rua Antônio Carlos, 76 – Centro, Mutum – MG. (Consulta presencial para levantamento de escrituras e inventários)


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FIM DO CAPÍTULO 29