📘 INTRODUÇÃO DO TOMO VI. POLÍTICA, PODER E FUTURO
Capítulos 30 a 32
Chegamos ao Tomo que trata daquilo que, muitas vezes, se prefere evitar: a política, o poder e as estruturas de decisão que organizam — ou desorganizam — a vida coletiva. Não é um tema fácil. Política, no Brasil, é palavra carregada de desconfiança, associada a corrupção, a favorecimento, a promessas não cumpridas. Mas seria um equívoco gravíssimo fingir que ela não existe ou que se pode compreender Mutum e Roseiral sem analisar como se governa, quem governa e em benefício de quem se governa.
O Tomo VI não é um panfleto partidário, nem uma apologia a esta ou àquela gestão. É, antes, um exercício de transparência e de cidadania: um convite para que o leitor conheça as regras do jogo, os atores em campo, as arenas de disputa e as possibilidades de participação. Porque, como ensina a ciência política, quem não conhece as regras está fadado a ser sempre governado por quem as conhece.
Começamos com a comunicação (Capítulo 30), cujo lugar neste tomo pode surpreender alguns leitores. Mas a comunicação é, antes de tudo, uma questão de poder. Quem controla os meios de comunicação — ou, na era digital, quem tem mais seguidores, mais engajamento, mais capacidade de produzir e difundir narrativas — exerce uma forma de poder tão eficaz quanto o voto ou o cargo público.
Mutum tem um ecossistema comunicacional diversificado: rádios comunitárias (Cultura FM, Mania FM), portais digitais (Mutum OnLine, Portal Mutum) e redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube). As rádios ainda são o veículo mais capilarizado, especialmente nas áreas rurais onde a internet chega com dificuldade. Os portais digitais, por sua vez, ganham espaço crescente, e as redes sociais se tornaram a principal arena do debate público — para o bem (mobilização comunitária, denúncia de irregularidades, controle social) e para o mal (disseminação de desinformação, ataques pessoais, polarização estéril).
A convergência entre o rádio, a imprensa digital e as redes sociais é um fenômeno que transformou a política local. Hoje, um cidadão comum pode filmar uma irregularidade, postar em um grupo de WhatsApp e, em poucas horas, gerar uma crise política. Isso é, ao mesmo tempo, democratização e caos — e o Capítulo 30 se debruça sobre essa ambiguidade.
A política propriamente dita (Capítulo 32) nos leva para o âmago do poder: o Executivo municipal (Prefeito, Vice-Prefeito, Secretarias), o Legislativo municipal (Câmara de Vereadores) e as lideranças comunitárias que atuam nos distritos — como Roseiral.
Analisamos a eleição de 2024, que deu a vitória a Claudinei Clemente de Freitas (REPUBLICANOS) com 55,90% dos votos válidos no primeiro turno. Analisamos também a cassação dos dois vereadores do MDB (Devair Horácio e Elizeu Rodrigues) por fraude à cota de gênero — um episódio que expôs as fragilidades do sistema eleitoral e a persistência de práticas clientelistas mesmo em pleno século XXI.
O Capítulo 32 não se limita, entretanto, à análise das instituições formais. Ele dedica uma seção inteira às lideranças comunitárias de Roseiral: a Associação de Moradores do Bairro Roseiral (hoje inativa, mas com potencial de reativação), a Associação dos Agricultores Familiares de Humaitá (AAFH), as lideranças religiosas (pároco da Igreja do Bom Jesus, pastor da Assembleia de Deus) e as lideranças informais, como os membros mais antigos da família Serrano.
O poder, em Mutum, não se exerce apenas nos gabinetes da Praça Benedito Valadares. Ele se exerce também nas reuniões do conselho de saúde, nas audiências públicas do orçamento participativo, nos grupos de WhatsApp da comunidade, nas conversas de bar, nas festas de padroeiro, nas cavalgadas. Quem compreende apenas a política formal não compreende, de fato, a política mutuense.
O futuro e as perspectivas (Capítulo 33), com o qual este tomo se encerra — e com o qual o livro como um todo se encerra —, é uma aposta. Uma aposta na capacidade da comunidade de Mutum e Roseiral de superar seus desafios e construir um horizonte mais próspero, mais justo e mais sustentável.
Não se trata de futurologia ou de adivinhação. Trata-se de identificar as tendências, as oportunidades e os riscos que se apresentam no horizonte. A Subestação Mutum 2 (R$ 62 milhões), que entrou em operação em maio de 2025, resolveu o problema crônico de oscilação de energia e abriu espaço para o crescimento industrial e comercial. O asfaltamento Mutum-Roseiral (2026) elimina o isolamento histórico do distrito e potencializa o escoamento da produção agrícola e o turismo. Os programas de restauração ambiental (Terra Doce, Reflorestar Doce) e a reintrodução do mutum-do-sudeste no Parque Estadual do Rio Doce são exemplos de que é possível conciliar desenvolvimento com conservação.
Mas os desafios são imensos. A ausência de um Plano Diretor municipal, a fragilidade do saneamento básico, a carência de infraestrutura nas escolas rurais, a dependência da monocultura do café e do eucalipto, a persistência da erosão e do assoreamento dos rios, e a falta de uma política municipal de incentivo ao artesanato e ao turismo são entraves que exigem ação decidida do poder público e engajamento da sociedade civil.
O Capítulo 33 não esconde esses desafios. Mas também não se rende ao pessimismo. Ele aponta caminhos, sugere prioridades, indica fontes de financiamento (BNDES, KfW, Funbio, Samarco/Vale, Governo de Minas) e convoca a comunidade a se organizar para incidir sobre as decisões que afetam seu futuro.
O Tomo VI, portanto, é um tomo de realismo e de esperança. De realismo, porque não se ilude: a política é feita de conflitos, de interesses, de disputas. De esperança, porque acredita que a participação cidadã, o controle social e o planejamento democrático podem, sim, construir um futuro melhor.
Ao final da leitura, esperamos que o leitor não se sinta desencantado com a política, mas, ao contrário, empoderado. Porque a política não é coisa de "eles" — os políticos, os partidos, os governantes. A política é coisa de "nós" — os cidadãos, a comunidade, a gente que acorda todo dia e faz Mutum e Roseiral acontecerem.
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Roseiral, distrito de Mutum — MG, 3 de maio de 2026.
Pedro Henrique Serrano Léllis,
Autor



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