CAPÍTULO 5

FAUNA: DIVERSIDADE, ESPÉCIES EMBLEMÁTICAS, PROJETO MUTUM E SUA IMPORTÂNCIA ECOLÓGICA





CAPÍTULO 5


FAUNA: DIVERSIDADE, ESPÉCIES EMBLEMÁTICAS, PROJETO MUTUM E SUA IMPORTÂNCIA ECOLÓGICA


---


1. Um santuário de biodiversidade na Mata Atlântica


O território de Mutum e do distrito de Roseiral está totalmente inserido no bioma da Mata Atlântica, um dos cinco hotspots mundiais de biodiversidade. A amplitude altimétrica da região – que vai de 215 m nas várzeas a mais de 1.100 m nos picos de Roseiral – cria um mosaico de ecossistemas e micro‑habitats que abriga uma fauna rica e variada. “O PERD é um dos poucos refúgios que abrigam essa espécie. Atualmente, o muriqui está ameaçado de extinção” (PARQUE ESTADUAL DO RIO DOCE, s.d.). A referência ao Parque Estadual do Rio Doce (PERD) é inevitável: situado a cerca de 60‑100 km a nordeste de Mutum, o PERD é a maior área contínua de Mata Atlântica preservada em Minas Gerais e serve como principal reservatório genético para a fauna da região. “O Parque Estadual do Rio Doce foi criado em 1944 tem 36 mil hectares de floresta preservada. O parque é um dos últimos refúgios da biodiversidade da Mata Atlântica em Minas Gerais” (WIKIPÉDIA, 2026).


Muitas das aves e mamíferos ameaçados registrados no PERD ocorrem – ou podem ocorrer – nos fragmentos florestais mais preservados de Mutum e Roseiral. A ligação ecológica entre o distrito e o parque é crucial para a conservação de longo prazo.


---


2. O mutum‑do‑sudeste: a ave que dá nome à cidade e que renasceu das cinzas


O mutum‑do‑sudeste (Crax blumenbachii), também conhecido como mutum‑de‑bico‑vermelho, é a espécie‑símbolo da fauna roseiralense. Sua história de quase extinção e bem‑sucedida reintrodução tornou‑se um caso de referência mundial em conservação. “Mutum‑do‑sudeste ... É uma espécie endêmica da Mata Atlântica, considerada criticamente ameaçada de extinção. Estima‑se que, na natureza, sua população esteja em cerca de 250 indivíduos” (NOVAMATA, s.d.).


O mutum é um frugívoro de grande porte: alimenta‑se preferencialmente de frutos e sementes no interior da mata, o que lhe confere um papel ecológico insubstituível. “O mutum é um plantador de florestas. Ao trazê‑lo de volta, beneficiamos todo o ecossistema” (LUIZ EDUARDO REIS, biólogo apud REVISTA VIVER BRASIL, 2025). “Espécie‑chave para a dispersão de sementes, o mutum‑do‑bico‑vermelho desempenha papel essencial na regeneração da floresta” (idem).


Ameaças históricas: caça e fragmentação


O mutum foi extinto localmente em quase toda a sua área de distribuição original por duas razões principais: a destruição do habitat (desmatamento para cafeicultura e pecuária) e a caça predatória. “O mutum‑do‑sudeste é uma espécie endêmica da Mata Atlântica que foi extinta em quase a totalidade de sua distribuição devido à destruição do seu ambiente natural pelo desmatamento, fragmentação do habitat e à caça predatória” (PORTAL CAPARAÓ, 2023).


O Projeto Mutum: da Fundação Crax ao “De Volta ao Lar”


A tentativa de reverter esse quadro começou em 1975, com o especialista Roberto Azeredo. “Surge, no Brasil, a partir do final dos anos 1970, o primeiro projeto de criação e reintrodução de aves em risco de extinção. Criado por Roberto Azeredo, tinha como objetivo a conservação da espécie” (NOVAMATA, s.d.). “Seu objetivo principal, desde 1987, quando foi criada a Crax — Sociedade de Pesquisa do Manejo e da Reprodução da Fauna Silvestre, é preservar o mutum ...” (TV UFOP, s.d.).


A partir da década de 1990, a Cenibra (Celulose Nipo‑Brasileira) entrou como parceira estratégica, disponibilizando a RPPN Fazenda Macedônia, em Ipaba (MG), para reprodução em cativeiro. “A RPPN Fazenda Macedônia, em Ipaba/MG, desenvolve o Projeto Mutum – Projeto de Reintrodução de Aves Silvestres Ameaçadas de Extinção, desde 1990” (G1, 2023). Em 2023, uma nova etapa foi centrada no Parque Estadual do Rio Doce, com a reintrodução de cerca de 30 aves na região da Ponte Perdida (G1, 2023). A fase atual do projeto, batizada de “De Volta ao Lar” , é coordenada pela Associação de Amigos do Parque (DuPERD) em parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF).


Resultados alcançados


Os números impressionam: “O Projeto Mutum se consolidou como uma das iniciativas mais consistentes de conservação de aves no Brasil, com mais de 500 indivíduos reintroduzidos, abrangendo sete espécies ameaçadas” (TV UFOP, s.d.). “Mais de 340 filhotes nascidos em vida livre já foram registrados durante os monitoramentos em campo” (idem).


No PERD, o monitoramento recente indica sucesso na adaptação: “aves não anilhadas — nascidas na natureza — já foram registradas a mais de 20 quilômetros do ponto de soltura. Um casal com filhote também foi avistado, sinalizando que a espécie está se reproduzindo em ambiente natural” (REVISTA VIVER BRASIL, 2025). “Outro indicador positivo é o engajamento crescente da população local, que tem relatado avistamentos da ave em áreas verdes próximas ao parque” (idem).


A pesquisa científica já documentou a influência positiva do mutum na regeneração da flora: “We used a 33-year old reintroduction project to investigate the effect of the frugivorous bird Crax blumenbachii on tree‑seedling communities in a Brazilian Atlantic Forest” (RUFINO et al., 2025).


Outras aves‑alvo


O projeto não se limita ao mutum. “Além do mutum, outras aves fazem parte do esforço do projeto, tais como: macuco, capoeira, jaó‑do‑sul, inhambuaçu, jacuaçu e jacutinga” (TV UFOP, s.d.). A jacutinga (Aburria jacutinga), ave rara, já foi avistada no PERD após mais de 50 anos sem registro. “Uma jacutinga (Aburria jacutinga), ave rara da fauna brasileira, foi registrada no Parque Estadual do Rio Doce (PERD), marcando o primeiro registro da espécie em mais de 50 anos” (G1, 2023).


---


3. Mamíferos de médio e grande porte


O muriqui (Brachyteles arachnoides)


O maior primata das Américas encontra refúgio no PERD. “O Parque Estadual do Rio Doce (PERD) é um dos poucos refúgios que abrigam essa espécie. Atualmente, o muriqui está ameaçado de extinção” (IEF, s.d.). A espécie depende de fragmentos florestais bem preservados, como os que existem nas áreas de maior altitude de Roseiral.


A onça‑parda (Puma concolor)


“Também possui muitos mamíferos ameaçados como a onça ...” (PREFEITURA DE MUTUM, s.d.). A onça‑parda é o maior predador de topo de cadeia que ainda ocorre na região. Sua presença é um indicador robusto da integridade ecológica da paisagem.


Outros mamíferos ameaçados


Na região podem ser encontrados (ou já foram registrados em áreas próximas) o tamanduá‑bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o lobo‑guará (Chrysocyon brachyurus), o cateto (Pecari tajacu), a queixada (Tayassu pecari), a anta (Tapirus terrestris), a preguiça‑de‑coleira (Bradypus torquatus), além de diversos pequenos felídeos (gato‑do‑mato, jaguatirica, gato‑maracajá).


---


4. A fauna aquática e a biodiversidade dos rios São Manoel e Mutum


A ictiofauna do médio Rio Doce é rica e abriga espécies endêmicas. O Rio Mutum serve de habitat para peixes de importância ecológica e para a pesca artesanal: traíra (Hoplias malabaricus), curimba (Prochilodus lineatus), piaus (Leporinus spp.) e lambaris (Astyanax spp.).


Os anfíbios também são muito diversos. “Os anfíbios são representados por 38 espécies, sendo algumas ameaçadas de extinção, como a perereca‑de‑capacete e a perereca da mata” (IEF, s.d.). Essas espécies podem ocorrer nos fragmentos de floresta úmida e brejosas do distrito de Roseiral.


---


5. Répteis e a fauna de escamados


A Mata Atlântica da região abriga uma rica diversidade de cobras, lagartos e quelônios. Entre as serpentes, destacam‑se jararaca (Bothrops jararaca), coral‑verdadeira (Micrurus corallinus) e jiboia (Boa constrictor). Lagartos comuns incluem teiús (Tupinambis merianae) e calango (Tropidurus torquatus). O cágado‑de‑barbelas (Phrynops geoffroanus) é um quelônio típico dos cursos d’água da região.


---


6. Interação entre fauna e floresta de eucalipto


A silvicultura de eucalipto impacta a fauna. Porém, o manejo adotado pela Cenibra – que mantém extensas áreas de preservação permanente e corredores ecológicos – tem se mostrado capaz de manter uma riqueza de espécies maior do que a esperada. “São cerca de 600 espécies da fauna, mais de 620 espécies da flora arbórea e mais de 4.500 nascentes preservadas pela Empresa” (CENIBRA, 2024). O eucaliptal, quando bem manejado, funciona como uma matriz permeável para muitas espécies.


---


7. Ameaças globais à biodiversidade local


A caça de subsistência e a caça ilegal de animais silvestres continuam ativas, sobretudo nas áreas rurais mais isoladas. “A jacutinga ... No entanto, os incêndios florestais e a caça ilegal colocam a espécie em risco de extinção em diversas regiões” (G1, 2023).


A fragmentação do habitat, agravada pela expansão das pastagens e da agricultura, isola populações e reduz o fluxo gênico. Os atropelamentos de fauna nas rodovias MG‑108 e BR‑262 são outra ameaça crescente.


---


8. O que essa fauna nos ensina


O mutum‑do‑sudeste que voltou a voar sobre o PERD é mais do que uma vitória da biologia da conservação. É um símbolo de que a destruição pode ser revertida – se houver vontade política, investimento em ciência e engajamento comunitário. Cada ave reintroduzida, cada filhote nascido em vida livre, é uma lição de que proteger a fauna é proteger a própria floresta. “O mutum é um plantador de florestas” – e nós, humanos, podemos aprender com ele a plantar o futuro.


---


9. Tabela‑síntese: espécies‑alvo de conservação na região de Mutum


Nome popular Nome científico Status de conservação Papel ecológico

Mutum‑do‑sudeste Crax blumenbachii Criticamente em perigo / Em perigo Dispersor de sementes grandes

Jacutinga Aburria jacutinga Em perigo Dispersor de sementes

Macuco Tinamus solitarius Vulnerável Dispersor de sementes

Jacuaçu Penelope obscura Pouco preocupante Dispersor de sementes

Muriqui Brachyteles arachnoides Em perigo Dispersor de sementes

Onça‑parda Puma concolor Vulnerável Predador de topo

Tamanduá‑bandeira Myrmecophaga tridactyla Vulnerável Insetívoro


---


REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 5 (ORDEM ALFABÉTICA)


CENIBRA – CELULOSE NIPO‑BRASILEIRA S.A. Relatório de Sustentabilidade – Biodiversidade. 2024.


G1 – TERRA DA GENTE. Projeto de conservação reintroduz 20 mutuns‑do‑sudeste em Minas Gerais. 13 set. 2023. Disponível em: g1.globo.com. Acesso em: 2 maio 2026.


IEF – INSTITUTO ESTADUAL DE FLORESTAS (MG). Parque Estadual do Rio Doce – Biodiversidade. s.d. Disponível em: ief.mg.gov.br.


NOVAMATA. Mutum‑do‑sudeste – Crax blumenbachii. s.d. Disponível em: novamata.org.


PORTAL CAPARAÓ. Projeto de conservação reintroduz 20 mutuns‑do‑sudeste em Minas Gerais. 13 set. 2023. Disponível em: portalcaparao.com.br.


PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. Localização – Fauna. s.d. Disponível em: mutum.mg.gov.br.


REVISTA VIVER BRASIL. Mutum‑do‑bico‑vermelho volta a habitar Parque Estadual do Rio Doce após 5 décadas de extinção. 19 maio 2025. Disponível em: revistaviverbrasil.com.br.


RUFINO, M. P. M. X. et al. Restoring plant‑animal interactions: The role of the red‑billed curassow (Crax blumenbachii) on tree‑seedling communities in a Brazilian Atlantic Forest. ScienceDirect, 2025.


TV UFOP. Projeto Mutum – Reintrodução de aves ameaçadas. s.d. Disponível em: tvufop.com.br.


WIKIPÉDIA. Parque Estadual do Rio Doce. Disponível em: pt.wikipedia.org. Acesso em: 2 maio 2026.


---


FIM DO CAPÍTULO 5