CAPÍTULO 6
FLORA: DOMÍNIO DA MATA ATLÂNTICA, FITOFISIONOMIAS, ESPÉCIES EMBLEMÁTICAS, ENDEMISMO E PROJETOS DE CONSERVAÇÃO
CAPÍTULO 6
FLORA: DOMÍNIO DA MATA ATLÂNTICA, FITOFISIONOMIAS, ESPÉCIES EMBLEMÁTICAS, ENDEMISMO E PROJETOS DE CONSERVAÇÃO
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1. Um patrimônio verde chamado Mata Atlântica
O território de Mutum e do distrito de Roseiral está inteiramente inserido no bioma Mata Atlântica, um dos cinco hotspots mundiais de biodiversidade. “A vegetação predominante no município é a de Mata Atlântica” (WIKIPÉDIA, 2026). O domínio fitogeográfico predominante é a Floresta Estacional Semidecidual (também chamada de Mata Atlântica de Interior), que originalmente cobria vastas extensões do leste e sudeste do Brasil.
A Bacia Hidrográfica do Rio Doce, onde se insere Mutum, apresenta uma configuração de transição entre o litoral e o interior. “A Bacia do Rio Doce está inserida no Domínio da Mata Atlântica, apresentando como fitofisionomias predominantes a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Ombrófila Densa” (ICMBIO/UFV/FUNARBE, apud ANÁLISE INTEGRADA DO DIAGNÓSTICO, s.d.).
Infelizmente, do ponto de vista do uso do solo, a bacia apresenta forte dominância antrópica: as áreas de vegetação nativa restam apenas em fragmentos florestais de tamanho reduzido. Isso impõe sérios desafios – fluxo gênico reduzido, perda de diversidade genética e menor resiliência do ecossistema frente às mudanças climáticas.
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2. Fitofisionomias de Mutum e Roseiral
Com altitudes que vão de 215 m (fundos de vale em Roseiral) a mais de 1.000 m (áreas serranas), o município abriga um mosaico de tipologias vegetacionais.
Fitofisionomia Características Ocorrência em Mutum/Roseiral
Floresta Estacional Semidecidual Submontana (100‑600 m) Dossel 20‑30 m, 20‑50% de perda foliar na seca Áreas mais baixas e vales dos rios
Floresta Estacional Semidecidual Montana (600‑1.200 m) Dossel 15‑20 m, perda foliar de 50‑70% Áreas de maior altitude de Roseiral
Floresta Aluvial (Mata Ciliar) Espécies adaptadas a solos hidromórficos Margens do Rio São Manoel, Mutum e José Pedro
Campos de Altitude e Vegetação Rupestre (>1.000 m) Gramíneas, herbáceas e subarbustos Apenas nos pontos mais elevados de Roseiral
Essa diversidade fitofisionômica confere à flora local uma riqueza superior à de áreas contínuas de um único tipo. A RPPN Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga (cerca de 80 km a oeste de Mutum), abriga mais de 120 espécies arbóreas. É altamente provável que os fragmentos remanescentes em Roseiral apresentem riqueza semelhante.
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3. Espécies arbóreas emblemáticas
Jequitibá‑rosa (Cariniana legalis) e jequitibá‑branco (Cariniana estrellensis)
O jequitibá‑rosa é uma das árvores mais imponentes da Mata Atlântica, podendo ultrapassar 40 metros de altura e 3 metros de diâmetro. “Cariniana legalis ou Jequitibá‑Rosa é uma das maiores árvores da floresta tropical úmida da América do Sul” (TES.USP.BR, s.d.). É considerada vulnerável nas listas oficiais. “Jequitibá‑rosa (Cariniana legalis) considerado ‘Vulnerável’” (BIOFÍLICA, s.d.). Sua ocorrência em Mutum e Roseiral é provável. O mesmo vale para o jequitibá‑branco.
Peroba‑rosa (Aspidosperma polyneuron)
Árvore de grande porte (20‑35 m), sua madeira nobre foi intensamente explorada, levando‑a à vulnerabilidade. Ocorre na Floresta Estacional Semidecidual e é componente original da flora arbórea do Vale do Médio Rio Doce.
Cedro (Cedrela fissilis)
O cedro atinge de 20 a 35 m de altura. “Pertencente à família Meliaceae, o cedro (Cedrela fissilis Vell.) apresenta grande importância econômica e ecológica” (QUALITY EVALUATION OF CEDRELA FISSILIS SEEDS, s.d.). “Ocorre no Rio Grande do Sul até Minas Gerais, principalmente nas florestas semidecíduas e pluvial atlântica” (ESALQ/USP, s.d.).
Ipês (Handroanthus spp.)
Os ipês são elementos emergentes do dossel, cujas floradas (amarelas, rosas ou roxas) marcam a paisagem na estação seca. “Ipê‑amarelo, piuva (Handroanthus chrysotrichus) … trata‑se de árvore de grande porte, podendo atingir 20 a 30 m de altura” (ACERVO SOCIOAMBIENTAL, s.d.).
Palmeiras e outras espécies‑chave
O palmito‑juçara (Euterpe edulis) está ameaçado de extinção em Minas Gerais (Lista Estadual) devido à extração ilegal. Outras espécies‑chave que podem ocorrer em Roseiral incluem pau‑brasil (Paubrasilia echinata), grumixama, cambuci, araçá, jabuticaba e pitanga – todas indispensáveis à avifauna frugívora.
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4. Endemismo e espécies ameaçadas
Estudos conduzidos na restauração da Bacia do Rio Doce (2017‑2023) mostraram um grau surpreendente de substituição de espécies ao longo do rio. “Foi identificado que apenas sete espécies vegetais ocorrem em todas as áreas do trecho estudado. Isso significa que em mais de 663 km de curso do rio […] as matas são formadas por espécies diferentes a cada trecho. Uma diversidade surpreendente até mesmo para os padrões do bioma Mata Atlântica” (DOCUMENTO INÉDITO, 2024).
Mutum e Roseiral são, portanto, detentores de populações únicas – sua perda implicaria o desaparecimento global dessas populações.
As principais espécies ameaçadas da flora local incluem:
· Jequitibá‑rosa (Cariniana legalis) – Vulnerável
· Peroba‑rosa (Aspidosperma polyneuron) – Vulnerável
· Pau‑brasil (Paubrasilia echinata) – Em perigo
· Palmito‑juçara (Euterpe edulis) – Vulnerável em Minas Gerais
“Jequitibá‑rosa (Cariniana legalis), Peroba‑rosa (Aspidosperma polyneuron), … são espécies ameaçadas de extinção” (ICMBIO, s.d.).
Orquídeas e bromélias endêmicas da Mata Atlântica também ocorrem na região, muitas delas listadas na Portaria MMA nº 148/2022.
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5. Projetos de restauração florestal
Programa Reflorestar Doce (Governo do ES)
Lançado em agosto de 2025, com investimento de R$ 334 milhões, o programa contempla restauração ecológica em APPs e reservas legais, viveiros comunitários e capacitação de agricultores. “O Reflorestar Doce inclui ações de mobilização, restauração florestal, incentivo à cadeia florestal, capacitações e demais ações” (SEAMA, 2025).
Fundação Renova (Samarco/Vale/BHP)
Como parte das obrigações do TTAC, a Fundação Renova destinou **R$ 1,1 bilhão** para a recuperação de 40 mil hectares. “Como forma de mitigar os impactos causados, a Fundação Renova assumiu o compromisso de fornecer R$ 1,1 bilhão para a recuperação de 40 mil …” (CSR UFMG, s.d.). Embora priorize as áreas mais afetadas pela lama, os programas hoje abrangem toda a bacia, incluindo Mutum.
Parceria WWF‑Brasil e Fundação Renova
“A Fundação Renova e o WWF‑Brasil firmaram convênio para desenvolver projeto piloto de recuperação florestal em larga escala” (WWF‑BRASIL, s.d.).
Diretrizes científicas para restauração
Lançado em outubro de 2024, um documento inédito com diretrizes científicas da UFMG, UFES e Unimontes alerta: “Não existe uma floresta homogênea ao longo de toda a bacia, mas, sim, muitas florestas, cada uma com conjuntos únicos de espécies e características próprias em cada local” (DOCUMENTO INÉDITO, 2024). Para Mutum e Roseiral, isso significa que os projetos de restauração não podem replicar listas de espécies de outras regiões; é necessário fazer levantamentos florísticos locais.
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6. Legislação e políticas de proteção
Código Ambiental Municipal (Lei nº 943/2017)
A lei, promulgada em 30 de maio de 2017, institui o Código Ambiental do Município de Mutum. “LEI Nº 943, DE 30 DE MAIO DE 2017. Institui o Código Ambiental do Município de Mutum e dá outras providências” (PREFEITURA DE MUTUM, 2017). “Art. 1º A Política Ambiental do Município de Mutum — MG … tem por objeto a conservação e a recuperação” (idem). “O corte e a supressão de vegetação primária ou secundária ficam vedados quando: I - a vegetação: a) abrigar espécies da flora, fauna silvestre e …” (idem).
Legislação estadual e federal
Complementam o arcabouço a Lei Federal nº 12.651/2012 (Novo Código Florestal) e a Lei da Mata Atlântica (nº 11.428/2006) , que estabelece regimes de supressão mais rigorosos. A fiscalização em Mutum é feita pelo IEF‑MG e pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
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7. Tabela‑síntese: espécies flagship da flora de Mutum e Roseiral
Nome popular Nome científico Status de conservação Importância ecológica
Jequitibá‑rosa Cariniana legalis Vulnerável (VU) Espécie emergente; fornece alimento à fauna; indicadora de floresta madura
Jequitibá‑branco Cariniana estrellensis Pouco preocupante (LC) Similar ao anterior, também indicadora de bom estado de conservação
Peroba‑rosa Aspidosperma polyneuron Vulnerável (VU) Madeira nobre; alimento para fauna; espécie‑chave na estrutura da floresta
Cedro Cedrela fissilis Vulnerável (VU) Dispersão anemocórica; alimentação de aves e mamíferos
Palmito‑juçara Euterpe edulis Vulnerável (VU) – Lista MG Recurso alimentar para aves e mamíferos; ameaçado pela extração ilegal
Ipê‑amarelo Handroanthus chrysotrichus Pouco preocupante (LC) Recurso para polinizadores; floração ornamental; árvore‑símbolo do Brasil
Fontes: ICMBio (Portarias MMA 148/2022 e 443/2014); Fundação Biodiversitas (Lista da Flora Ameaçada de Minas Gerais).
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8. O que essa floresta nos ensina
A Mata Atlântica de Mutum e Roseiral é muito mais do que um repositório de carbono ou um conjunto de árvores. É a memória genética de um bioma que já foi contínuo e agora resiste em fragmentos. Cada jequitibá centenário testemunhou a chegada dos tropeiros, a derrubada para o café e o plantio do eucalipto. Cada palmito‑juçara que ainda sobrevive é um grito contra a exploração ilegal.
Os projetos de restauração – Reflorestar Doce, Fundação Renova, Terra Doce – trazem esperança, mas não são suficientes sem o engajamento local. A Lei da Mata Atlântica e o Código Ambiental de Mutum são ferramentas poderosas, mas precisam ser fiscalizadas e cumpridas.
No fim, preservar a flora é preservar a própria identidade de Roseiral. Porque sem a floresta, não há água. Sem a água, não há vida. E sem vida, não há história.
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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 6 (ORDEM ALFABÉTICA)
APREMAVI – ASSOCIAÇÃO DE PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE E DA VIDA. Floresta Estacional Decidual. s.d.
BIOFÍLICA. Corredores Ecológicos – Jequitibá‑rosa. s.d.
DOCUMENTO INÉDITO REÚNE DIRETRIZES CIENTÍFICAS PARA RESTAURAR AS MATAS DO RIO DOCE. Biodiversidade Brasileira, 2024.
ESALQ/USP. Cedro – Cedrela fissilis. s.d.
ICMBIO – INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção – Flora. s.d.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MUTUM. Lei nº 943/2017 – Código Ambiental do Município de Mutum. 30 maio 2017.
QUALITY EVALUATION OF CEDRELA FISSILIS SEEDS. s.d.
SEAMA – SECRETARIA DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE E RECURSOS HÍDRICOS (ES). Programa Reflorestar Doce. 25 ago. 2025.
SOS MATA ATLÂNTICA. Dados sobre o bioma – riqueza de orquídeas e bromélias. s.d.
WIKIPÉDIA. Mutum (Minas Gerais). Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Mutum_(Minas_Gerais). Acesso em: 2 maio 2026.
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FIM DO CAPÍTULO 6



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