CAPÍTULO 7
GEOLOGIA, RELEVO ACIDENTADO, VALES E FORMAÇÃO DE PISCINAS NATURAIS
CAPÍTULO 7
GEOLOGIA, RELEVO ACIDENTADO, VALES E FORMAÇÃO DE PISCINAS NATURAIS
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1. A base do território: geologia que sustenta a paisagem
Para entender por que Mutum e Roseiral têm morros tão íngremes, vales profundos e cachoeiras de águas cristalinas, é preciso olhar para o chão – literalmente. A geologia da região começou a se formar há mais de 500 milhões de anos, no período Pré‑Cambriano, quando as rochas que hoje afloram nas encostas ainda estavam soterradas sob outras camadas ou sendo dobradas por forças titânicas.
“CPRM – Serviço Geológico do Brasil. Carta de suscetibilidade a movimentos gravitacionais de massa e inundação: município de Mutum – MG. Rio de Janeiro, 2014. 1 mapa, color. Escala 1:110.000” (CPRM, 2014). Esse documento da CPRM, elaborado com base em levantamentos de campo e imagens de radar, “tem caráter informativo e é elaborado para uso exclusivo em atividades de planejamento e gestão do território, apontando áreas quanto ao desenvolvimento de processos do meio físico que podem ocasionar desastres naturais” (CPRM, 2014).
A carta classifica o território em graus baixo, médio e alto de suscetibilidade a escorregamentos e inundações, servindo de guia para o poder público e para a população na prevenção de desastres – em conformidade com a Lei Federal nº 12.608/2012 (Política Nacional de Proteção e Defesa Civil).
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2. O contexto geológico regional
2.1. De onde vêm essas rochas
O município de Mutum está encravado no Crátom do São Francisco – uma das mais antigas e estáveis porções da crosta terrestre no Brasil – e nas faixas de dobramentos que o rodeiam. Mais especificamente, insere‑se na Província Estrutural Mantiqueira, uma faixa de rochas dobradas e metamorfizadas durante a orogenia Brasiliana (800‑500 milhões de anos atrás). As rochas predominantes são os gnaisses e migmatitos (rochas metamórficas de alta temperatura), com intrusões de granitoides (rochas ígneas que esfriaram lentamente em profundidade).
Estudos petrográficos e geocronológicos indicam que essas rochas passaram por dois grandes eventos de deformação: o primeiro, associado à formação da própria cordilheira (Brasiliana); o segundo, já no Cretáceo Inferior (cerca de 120 milhões de anos atrás), ligado à abertura do Oceano Atlântico, que reativou antigas falhas e fraturas.
“Folha SE.24 Rio Doce: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação, uso potencial da terra” (INCAPER, 1987). Esse documento mostra que o arcabouço estrutural regional controla tanto a direção das drenagens quanto a distribuição das manchas de solo, sendo fundamental para qualquer projeto de gestão territorial.
2.2. O embasamento cristalino e os sedimentos recentes
Nas áreas de maior declive (encostas e topos de morro), o embasamento rochoso aflora ou está logo abaixo do solo. Já nas planícies dos rios, depositaram‑se sedimentos aluviais e coluviais – areias, cascalhos, argilas – ao longo do Quaternário. Esses depósitos formam os terrenos mais planos e férteis, onde se desenvolveram a agricultura e a pecuária.
As principais litologias da região são:
· Gnaisses bandados: rochas metamórficas de grão médio a grosso, ricas em quartzo, feldspato e biotita. Quando fraturadas, dão origem a blocos de grandes dimensões, como os que formam a Pedra Invejada.
· Granitoides sin‑a‑tardi‑tectônicos: corpos intrusivos de granito que resistem melhor à erosão. São eles que formam os lajeados onde surgem as piscinas naturais e as corredeiras.
· Depósitos aluviais e coluviais: areias, siltes e cascalhos depositados ao longo dos rios Manhuaçu e seus afluentes. Onde esses sedimentos se acumulam, as terras são mais planas e férteis – é o caso de parte da sede de Mutum e de algumas áreas de Roseiral.
“Em ambas as margens do rio Doce, grande parte dos cursos d’água segue a mesma direção das estruturas” (ANÁLISE DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DOCE, apud OPENEDITION JOURNALS). Essa frase evidencia o forte controle estrutural na orientação dos rios, condicionado pelas zonas de cisalhamento do embasamento.
As implicações práticas são diretas:
1. Segmentos retilíneos dos vales → os rios correm encaixados em falhas, favorecendo o surgimento de corredeiras e quedas d’água.
2. Quedas d’água e piscinas naturais → onde o rio cruza um contato litológico resistente (granito), o desnível abrupto forma a cachoeira; os blocos soltos e as depressões escavadas (potholes) formam as piscinas.
3. Vales alargados → onde o canal se desenvolve sobre sedimentos inconsolidados, o vale se alarga, formando planícies aluviais (ocupadas pelas plantações e pastagens).
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3. Como o relevo se organiza
Com base em dados de radar SRTM e em perfis topográficos (pt‑br.topographic-map.com), podemos dividir o território de Mutum e Roseiral em quatro unidades de relevo.
3.1. Planície aluvial e terraços fluviais
São as várzeas dos rios São Manoel, Mutum e José Pedro, com cotas entre 215 e 400 m. Ali estão os solos mais férteis do município, ocupados por cafeicultura, culturas anuais e pastagens.
3.2. Colinas e morrotes
Relevo de declividade suave a moderada (10‑30%), entre 400 e 700 m. São áreas de transição, ocupadas por pastagens e pequenas lavouras perenes (café). Os solos são profundos (latossolos), mas vulneráveis à erosão laminar quando mal manejados.
3.3. Encostas íngremes e serras
Declividade acima de 30%, nas áreas de maior altitude. O relevo torna‑se escarpado, com topos aguçados e vertentes curtas. Roseiral está incrustado nesse domínio. O mapa topográfico do distrito mostra: altitude média de 532 m, mínima de 215 m e máxima de 1.104 m (TOPOGRAPHIC MAP, 2026).
Esse gradiente altimétrico de quase 900 metros (entre o fundo do vale no Rio José Pedro e os picos do distrito) é o grande motor da dinâmica hidrológica e sedimentar. É ele que produz quedas d’água, corredeiras e piscinas naturais.
3.4. Pontões rochosos e monólitos
“Pedra Invejada é um monólito de granito e um dos principais pontos turísticos do município de Mutum ... Seu cume está a uma altitude de 1 516 m acima do nível do mar” (WIKIPÉDIA, 2026). “Mutum é rodeado pela Pedra Invejada, Pedra do Facão e Pedra do Gaspar, símbolos do ecoturismo na região do entorno do Caparaó” (WIKIWAND, 2026).
Esses monólitos são inselbergues – testemunhos de uma erosão diferencial que removeu as rochas menos resistentes ao redor, deixando os blocos graníticos isolados. Eles funcionam como divisores de água e seus pés concentram o escoamento superficial, que escava verticalmente os canais. A fraturação natural dessas rochas gera blocos soltos que, rolados para os leitos dos rios, formam as barreiras naturais por trás das quais as piscinas se acumulam.
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4. Como se formam as piscinas naturais
As piscinas naturais (chamadas tecnicamente de potholes ou “marmitas de gigante”) são criadas pela força turbilhonar da água. O processo pode ser resumido em cinco etapas:
1. Gênese do desnível – A queda d’água nasce onde o rio encontra uma rocha mais resistente (como o granito) ou uma falha.
2. Escavação por turbilhão – Água e sedimentos giram em depressões incipientes, escavando cavidades arredondadas. “Ao longo do tempo geológico, piscinas são importantes porque o jato energético da cachoeira pode erodir as paredes rochosas da piscina — movendo lentamente a cachoeira rio acima” (SCIENCEAQ, s.d.).
3. Qualidade da água – A água cristalina das piscinas de Mutum e Roseiral resulta do baixo teor de sedimentos finos e da baixa erodibilidade do leito rochoso (granitos e gnaisses).
4. Preenchimento sazonal – Durante as cheias, areia e seixos podem se depositar nas piscinas, reduzindo temporariamente sua profundidade.
5. Migração da cachoeira – Com o tempo, a erosão regressiva faz a cachoeira recuar para montante, deixando um desfiladeiro e, por vezes, uma sequência de piscinas em degraus.
Em Mutum, os melhores exemplos estão no Cachoeirão (com seu tobogã natural sobre lajeado de granito) e na Cachoeira da Berica (piscina ampla e acessível).
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5. Riscos e potencialidades
A beleza da paisagem não esconde seus perigos. As encostas íngremes e os solos espessos (em especial os argissolos, com forte contraste textural) são naturalmente suscetíveis a escorregamentos translacionais – aqueles em que uma camada de solo escorrega sobre a rocha sã ou sobre um horizonte mais compacto.
A Carta de Suscetibilidade da CPRM é a ferramenta que classifica essas áreas e deve ser usada pelo poder público no planejamento da ocupação do solo.
No lado das oportunidades, a mesma geologia que ameaça também atrai. O geoturismo é uma atividade em ascensão: a Pedra Invejada já recebe praticantes de rapel e trilhas; as piscinas naturais atraem famílias nos fins de semana. Com a devida sinalização e infraestrutura mínima (trilhas seguras, placas explicativas, áreas de lazer controladas), o potencial turístico pode se transformar em fonte de renda para a comunidade.
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6. O que o chão nos ensina
A geologia de Mutum e Roseiral não é um conjunto de rochas mortas. Ela determina onde podemos plantar, onde podemos construir, onde a água corre ou se acumula. Conhecer o embasamento cristalino, as fraturas que orientam os rios, os solos que deslizam na chuva – tudo isso é ferramenta para viver melhor e com mais segurança.
E as piscinas naturais, formadas pela paciência milenar da água, são um lembrete de que a natureza, quando respeitada, nos oferece de volta beleza e lazer. Cuidar do chão é cuidar do futuro.
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REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO 7 (ORDEM ALFABÉTICA)
CPRM – SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Carta de suscetibilidade a movimentos gravitacionais de massa e inundação: município de Mutum – MG. Rio de Janeiro, 2014. 1 mapa, color. Escala 1:110.000.
INCAPER – INSTITUTO CAPIXABA DE PESQUISA, ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL. Folha SE.24 Rio Doce: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação, uso potencial da terra. 1987.
OPENEDITION JOURNALS. Análise da bacia hidrográfica do Rio Doce (MG/ES) – controle estrutural das drenagens. s.d.
SCIENCEAQ. O que faz com que as piscinas abaixo das cachoeiras se encham periodicamente de sedimentos? Disponível em: pt.scienceaq.com. Acesso em: 2 maio 2026.
TOPOGRAPHIC MAP – PT‑BR.TOPOGRAPHIC‑MAP.COM. Mapa topográfico Roseiral, altitude, relevo. Disponível em: pt-br.topographic-map.com/map-k85k57/Roseiral/. Acesso em: 2 maio 2026.
WIKIPÉDIA. Mutum (Minas Gerais). Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Mutum_(Minas_Gerais). Acesso em: 2 maio 2026.
WIKIPÉDIA. Pedra Invejada. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_Invejada. Acesso em: 2 maio 2026.
WIKIWAND. Mutum (Minas Gerais). Disponível em: wikiwand.com/pt/articles/Mutum_(Minas_Gerais). Acesso em: 2 maio 2026.
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FIM DO CAPÍTULO 7



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