📘 INTRODUÇÃO DO TOMO III. SOCIEDADE, CULTURA E TRADIÇÕES
Capítulos 16 a 20
Superadas as camadas da natureza (Tomo I) e da ocupação territorial e formação histórica (Tomo II), chegamos agora ao que há de mais vivo e pulsante em Mutum e Roseiral: sua gente, sua cultura, suas tradições.
O Tomo III é, se me permitem a metáfora, o coração do livro. É aqui que o leitor deixará de lado, por alguns capítulos, os dados demográficos e as análises econômicas para se entregar à experiência do afeto, do encontro, da festa e da memória compartilhada. É aqui que as vozes dos mutuenses — suas rezas, seus cantos, seus causos, seus sotaques — ganham o centro do palco.
Começamos com a cultura e as festas (Capítulo 16). Nada define melhor um povo do que aquilo que ele celebra. Em Mutum, o calendário festivo é denso e diversificado: as Charolas e Folias de São Sebastião, que percorrem as comunidades rurais entre 6 e 20 de janeiro, carregando bandeiras e entoando toadas centenárias; a Festa do Padroeiro São Manoel, em 17 de junho, com sua procissão luminosa de milhares de velas descendo as colinas; a Festa do Bom Jesus, em Roseiral, nos dias 5, 6 e 7 de agosto, que reúne devotos de toda a região; a Exposição Agropecuária e o Encontro do Mutuense Ausente, em julho, que reconecta os filhos da terra que partiram para as cidades; e o 1º Mutum Arraia, resgatando as tradições juninas. Cada festa é um ato de resistência cultural e de reforço dos laços comunitários.
A religiosidade (Capítulo 17) nos leva para o âmago da alma mutuense. A fé católica, introduzida pelos jesuítas e consolida com a criação da Paróquia de São Manoel (1912), é o fio condutor de grande parte das manifestações culturais do município. Mas não apenas ela: a Igreja do Bom Jesus, em Roseiral, é o centro aglutinador do distrito; a Assembleia de Deus, ali presente, representa a diversidade religiosa que se instalou ao longo das décadas; e o evento Kairós, da Igreja Casa de Oração, ilustra o vigor do segmento neopentecostal. As Charolas e Folias, registradas como patrimônio imaterial de Minas Gerais pelo IEPHA, são o ponto mais alto dessa religiosidade popular cantada e dançada.
O folclore e as tradições orais (Capítulo 18) nos transportam para o universo dos causos, das lendas, dos assombros e das sabedorias populares. Quem nunca ouviu falar do Zé Mutum, o "João Grilo" roseiralense, que enfrenta o Caipora e a Mula Sem Cabeça com sua astúcia matuta? Quem nunca estremeceu com a história do lobisomem que ronda as estradas da zona rural na sexta-feira da lua cheia? O congado, o boi-bumbá e a quadrilha junina são as danças que animam as festas e mantêm vivas as heranças africanas, indígenas e europeias. Essas narrativas não são meros entretenimentos; são veículos de memória, de moralidade e de pertencimento.
A comunicação (Capítulo 19) nos mostra como Mutum se informa, se diverte e se articula. O rádio — com emissoras como a Cultura FM, a Mania FM e a Kairós — ainda é o meio mais capilarizado, especialmente nas áreas rurais onde a internet chega com dificuldade. Mas os portais digitais — Mutum OnLine, Portal Mutum, Mutum Notícias — ganham espaço crescente, e as redes sociais (Facebook, WhatsApp, Instagram) se tornaram a principal arena do debate público, para o bem e para o mal. A convergência entre o rádio, o impresso (que já teve seus dias de glória com "O Pio do Mutum") e o digital é um fenômeno que este capítulo analisa em detalhe.
Finalmente, o esporte e o lazer (Capítulo 20) nos lembram que a vida não é só trabalho e obrigação. O futebol amador, com seus times da sede e dos distritos, mobiliza torcidas inteiras nos fins de semana. O Ginásio Poliesportivo Públio Nolasco e o Estádio Municipal Sebastião Cesário da Silva são templos laicos onde a comunidade se reúne para vibrar, sofrer e celebrar. Os Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) revelam talentos e promovem a integração entre as escolas. E as cavalgadas, como a 4ª Cavalgada Maçônica e a 1ª Copa de Marcha Especializada do Cavalo Mangalarga Marchador, mantêm viva a tradição equestre e tropeira.
O Tomo III, portanto, não é um tratado de sociologia ou de antropologia cultural no sentido acadêmico estrito. É um convite à experiência. Ao ler estes capítulos, esperamos que o leitor se sinta sentado à mesa de uma casa de fazenda em Roseiral, tomando um café coado na hora e ouvindo o mais velho da família contar um causo; que se veja na multidão que acompanha a procissão da Lanterna de São Manoel, vela na mão, olhos marejados; que dance quadrilha no Mutum Arraia e cante toadas com a Charola de São Sebastião.
Porque, no fim das contas, a cultura não se estuda: vive-se.
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Roseiral, distrito de Mutum — MG, 3 de maio de 2026.
Pedro Henrique Serrano Léllis
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