📘 INTRODUÇÃO DO TOMO V.  VIDA COTIDIANA E SERVIÇOS



Capítulos 26 a 29

Chegamos agora ao Tomo que talvez seja o mais próximo do chão, da experiência concreta de ser e viver em Mutum e Roseiral. Se os tomos anteriores nos deram a natureza, a história, a cultura e a economia — dimensões fundamentais, mas ainda macroestruturais —, o Tomo V nos convida a entrar nas casas, nas escolas, nos postos de saúde, nos cemitérios. É aqui que o leitor perceberá como se organiza o cotidiano, como se nasce, se estuda, se adoece, se morre e se é lembrado neste pedaço do Vale do Rio Doce.


Começamos com a educação (Capítulo 26), uma das mais poderosas alavancas de transformação social. A primeira escola de Mutum — o "Edifício Escolar" — foi criada em 26 de maio de 1923, no mesmo dia em que se inaugurou o prédio da Câmara Municipal. Era o ato fundador de uma política pública que, ao longo de um século, expandiu-se para alcançar todos os distritos. Hoje, Mutum conta com 43 escolas, sendo 27 municipais, 14 estaduais e 2 particulares. A taxa de escolarização de crianças de 6 a 14 anos é praticamente universal (99,22%), e a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais alcança 96,12% — acima da média nacional.


Mas a educação em Mutum também enfrenta desafios. As escolas rurais, como a EM Afonso Pena e a EM Geraldo Elias Serrano, no distrito de Roseiral, carecem de infraestrutura básica (bibliotecas, laboratórios, quadras de esporte, acessibilidade, conectividade). O transporte escolar, ainda que gratuito e em operação, percorre estradas vicinais precárias. E a evasão escolar no Ensino Médio, especialmente entre os jovens do campo, é uma preocupação constante. O Capítulo 26 não se furta a apresentar esses desafios, mas também celebra as conquistas: a Escola Estadual Professora Rita Teixeira de Lacerda, em Roseiral, que oferta Ensino Médio no próprio distrito, evitando que os jovens precisem se deslocar para a sede; a APAE, que atende pessoas com deficiência e suas famílias; e o Colégio Mutum, referência em qualidade no ensino particular.


A saúde (Capítulo 27) é o segundo pilar da vida cotidiana. A história da saúde em Mutum começa com as epidemias que assolavam a região no final do século XIX e início do século XX — as mesmas que inspiraram a promessa que deu origem às Charolas de São Sebastião. O primeiro hospital, o São Vicente de Paulo, começou a ser construído no período da urbanização massiva (1953-1965) e hoje é o principal estabelecimento de urgência e emergência do município. A Policlínica Municipal, o CAPS I (Centro de Atenção Psicossocial), o Serviço Residencial Terapêutico (SRT) e a rede de PSFs (Programas de Saúde da Família) compõem um sistema que, embora ainda com lacunas, garante atendimento básico à quase totalidade da população.


O distrito de Roseiral conta com sua própria Unidade Básica de Saúde (UBS/PSF Roseiral), instalada na Rua José Teixeira, 140, que passou por reformas recentes (2024). No entanto, os indicadores de saúde revelam desafios: a mortalidade infantil, embora tenha caído, ainda é preocupante (5,9 óbitos por mil nascidos vivos); a cobertura vacinal infantil sofreu quedas no período pandêmico; e a atenção à saúde da criança na primeira semana de vida é uma das áreas que mais demandam melhorias, conforme revelou estudo realizado pela UFMG.


O cemitério e a memória (Capítulo 28) nos confrontam com a finitude, mas também com a potência da lembrança. Os cemitérios de Mutum — o da sede (Cemitério São Manuel), o de Roseiral, o de Ocidente, o de Centenário e o de Alto Dourado — são verdadeiros arquivos a céu aberto. Neles repousam gerações de famílias tradicionais, e suas lápides, cruzes e mausoléus contam histórias de amor, de perda, de fé e de poder.


O episódio das "caveiras encontradas na propriedade de João Pedro Serrano", registrado pelo Arquivo Público Mineiro em fotografia de 1930 (SIAAPM — POL‑006), é um dos pontos altos deste capítulo. O mistério que envolve a descoberta de esqueletos humanos na fazenda do patriarca da família Serrano, em Roseiral, e sua remessa à delegacia local, permanece não solucionado — mas atesta a profundidade da presença Serrano no território e as complexas práticas funerárias do passado.


O cemitério é, também, lugar de memória viva: no Dia de Finados (2 de novembro), as famílias visitam os túmulos, limpam, pintam, colocam flores e velas. Muitos mutuenses ausentes retornam à terra natal especialmente para essa data. É um momento de reencontro com os mortos, mas também com os vivos — e com a própria identidade.


Finalmente, a arquitetura (Capítulo 29) nos presenteia com o patrimônio edificado: a Igreja Matriz de São Manoel, a Capela Nossa Senhora do Rosário (tombada pelo município), a Igreja do Bom Jesus de Roseiral, os casarões do centro histórico (Praça Benedito Valadares, Rua Dom Cavati), as casas de fazenda do ciclo cafeeiro (ainda de pé, ainda que muitas em ruínas), e a antiga Câmara Municipal (hoje sede da Prefeitura).


A arquitetura de Mutum não é a do barroco mineiro das cidades do ouro; é a arquitetura vernacular do período cafeeiro, com suas técnicas construtivas luso-brasileiras adaptadas aos materiais disponíveis: taipa, pau-a-pique, adobe, madeira de lei, telha-canal. Preservar esse patrimônio é um desafio — e uma urgência. A ausência de um Plano Diretor municipal, a falta de consciência do valor histórico dos imóveis e os altos custos de restauração são ameaças reais à sua conservação.


O Tomo V, ao final da leitura, terá cumprido seu papel se conseguir fazer o leitor sentir que viveu um dia em Mutum: acordou cedo, levou os filhos à escola, passou no PSF para medir a pressão, almoçou feijão tropeiro, visitou o túmulo dos avós no cemitério e, ao entardecer, contemplou a fachada da Igreja Matriz tingida pelo sol poente.


A vida cotidiana é feita dessas pequenas coisas. E são elas, no fim das contas, que constroem a grande história.


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Roseiral, distrito de Mutum — MG, 3 de maio de 2026.


Pedro Henrique Serrano Léllis

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